De Norte a Sul o povo lamuria a sua desgraça
O trecho integra editorial publicado por Lobato na Revista do Brasil em dezembro de 1918, vol. IX, ano III, nº 36, pp. 387-391. Lobato havia adquirido a revista naquele mesmo ano e a transformaria nos anos seguintes em órgão central da intelectualidade paulista. O texto é inventário sistemático das perdas brasileiras a partir do contraste entre o regime monárquico (1822-1889) e o republicano (a partir de 1889), com sequência paralelística de “tinha X, tem Y”.
A enumeração é longa: “Tinha um rei, tem sátrapas. Tinha dinheiro, tem dívidas. Tinha justiça, tem cambalachos de toga. Tinha Parlamento, tem ante-salas de fâmulos. Tinha o respeito do estrangeiro, tem irrisão e desprezo. Tinha moralidade, tem o impudor deslavado. Tinha soberania, tem cônsules estrangeiros assessorando ministros. Tinha estadistas, tem pêgas. Tinha vontade, tem medo. Tinha leis, tem estado de sítio. Tinha liberdade de imprensa, tem censura. Tinha brio, tem fome. Tinha Pedro II, tem… não tem! Era. Não é.” A força retórica é da repetição.
A posição é menos monarquista do que crítica do que Lobato chama de “República dos Estados Unidos do Brasil” — a República Velha (1889-1930), dominada pelas oligarquias paulista e mineira, com fraudes eleitorais e troca contínua de governos por força de pacto entre coronéis. O texto sai em dezembro de 1918, no fim do governo Wenceslau Brás, quando a gripe espanhola devastava o país e a economia ainda sentia os efeitos da Primeira Guerra. Lobato registra um momento de fadiga nacional. A nostalgia da monarquia funciona como argumento contra a República concreta, não como defesa da volta de Pedro II. A frase central — “Era. Não é.” — condensa o diagnóstico em fórmula curta que é, ao mesmo tempo, registro de luto e crítica política.
