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De escrever para marmanjos já me enjoei. Bichos sem graça

“A Barca de Gleyre” é a coleção da correspondência entre Lobato e o escritor mineiro Godofredo Rangel, amigo da juventude paulistana e interlocutor de quatro décadas. Publicada em 1944, dois volumes, pela Companhia Editora Nacional. O título alude ao quadro homônimo do pintor suíço Charles Gleyre, em que duas figuras embarcam numa balsa de partida — imagem que Lobato e Rangel adotaram desde a juventude como metáfora da travessia da vida literária. Entre as cartas mais citadas está a passagem em que Lobato declara a fadiga com o público adulto: “De escrever para marmanjos já me enjoei. Bichos sem graça. Mas para crianças um livro é todo um mundo.”

A formulação consolida uma virada que estava em curso desde 1920, quando Lobato publica “A menina do narizinho arrebitado”. A literatura para adultos, depois de “Urupês” (1918) e “Cidades Mortas” (1919), passa a ser considerada por ele insuficiente, ingrata, sem retorno proporcional ao trabalho. Já o público infantil é descrito como mundo inteiro, espaço onde o escritor pode operar com licença imaginativa total. A oposição “marmanjo / criança” ressurge em cartas posteriores como princípio organizador da carreira.

A escolha pela literatura infantil ancorou a produção que faria de Lobato um clássico nacional reconhecido em escolas brasileiras por mais de cem anos. A série do Sítio do Picapau Amarelo, iniciada em 1920 e estendida até “Os Doze Trabalhos de Hércules” (1944), é o desdobramento prático da decisão registrada na carta a Rangel. A frase é também documento da relação privada de Lobato com a obra: o autor adulto, o “marmanjo” cansado dos próprios pares, descobre que o leitor de oito anos lhe devolve algo que o leitor adulto não lhe dava.