Com petróleo e ferro, o homem se multiplica por mil. Com o livro, ele se torna um Homem
A formulação articula em fórmula curta os dois eixos da campanha pública de Lobato a partir dos anos 1930. De um lado, a campanha pelo petróleo e pelo ferro nacionais, que ocupa o autor entre 1931 e 1937 e produz “Ferro” (1931) e “O Escândalo do Petróleo” (1936). De outro, a campanha pelo livro barato e pela formação do leitor brasileiro, que orienta toda a produção editorial do autor desde a Companhia Editora Nacional em 1925. A frase reconhece que as duas campanhas são complementares: indústria sem livro produz multiplicação sem qualidade; livro sem indústria produz cultura sem base material.
A escolha das duas matérias-primas é deliberada. Petróleo e ferro são, para Lobato, os dois insumos sem os quais nenhum país do século XX se industrializa de fato. Os Estados Unidos cresceram porque tinham os dois e os exploraram. O Brasil tem os dois e, segundo Lobato, é impedido de explorá-los pelo conluio entre governos brasileiros e companhias estrangeiras. A campanha pelo petróleo é, para o autor, briga de soberania industrial. O acrescentamento do livro ao binômio petróleo-ferro é o passo característico do escritor que viveu de editar.
O argumento sobre a multiplicação por mil é técnico-econômico. Petróleo e ferro mecanizam o trabalho humano; cada operário, com energia e máquina, produz o que mil produziriam à mão. O argumento sobre o livro é antropológico. O homem mecanizado é mais produtivo, mas continua homem em sentido físico; o homem que lê torna-se “Homem” em sentido amplo, com maiúscula no original lobatiano. A maiúscula carrega o peso. A produção bruta multiplica o operário; a leitura constitui o cidadão. A frase é formulação aforística do programa de Lobato como editor-industrialista, e dificilmente faria sentido sem as duas décadas de briga prática que o autor moveu pelas duas frentes.
