Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima
“Caçadas de Pedrinho” foi publicado em 1933 e integra a série do Sítio do Picapau Amarelo. O livro virou foco de polêmica jurídica e pedagógica em 2010, quando o Instituto de Advocacia Racial e Ambiental impetrou mandado de segurança contra a inclusão obrigatória da obra em programas de leitura escolar, apontando duas passagens com vocabulário racializador sobre Tia Nastácia. A primeira é a comparação animal: “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima, com tal agilidade que parecia nunca ter feito outra coisa na vida.” A segunda é a frase: “Não vai escapar ninguém, nem tia Nastácia, que tem carne preta.”
A primeira passagem usa “macaca de carvão” como termo comparativo de agilidade aplicado à personagem negra, em contexto narrativo onde os outros personagens (brancos) sobem em árvores ou correm sem que essa imagem seja acionada. A segunda associa a cor da pele de Tia Nastácia ao motivo de risco de ser comida pelas onças, num pequeno grupo de personagens onde só ela tem “carne preta” especificada. Em “Reinações de Narizinho” (1931), Tia Nastácia é referida 56 vezes como “a negra” segundo levantamento citado por estudos acadêmicos, e em outras passagens é chamada de “negra de estimação” e “macaca de tição”.
A controvérsia jurídica caminhou pelo CNE (Conselho Nacional de Educação) entre 2010 e 2014. A Câmara de Educação Básica e o Plenário do CNE rejeitaram o pedido de retirada do livro, com argumentos sobre liberdade de expressão e contexto histórico. A decisão foi controvertida e gerou acúmulo crítico considerável, com edições posteriores da obra incluindo aparato pedagógico e notas de contextualização. A obra continua em circulação. As passagens permanecem documento de como o vocabulário racializador estava normalizado na literatura infantil brasileira do início do século XX, inclusive na obra de um autor que, em “Negrinha” (1920), denunciava a violência doméstica contra meninas negras. A tensão entre os dois momentos do mesmo autor é parte do que torna o caso peculiar.
