Ao terminar a leitura, o leitor corre à janela para ver se ainda há céu no mundo
O fragmento foi escrito por Lobato em Areias, no Vale do Paraíba paulista, em 1907, quando o autor estava com 25 anos e ainda procurava forma para o que viria a ser sua prosa madura. A frase é definição operativa do efeito que ele queria que sua literatura produzisse no leitor: “Ao terminar a leitura, o leitor corre à janela para ver se ainda há céu no mundo e ar.” A imagem é precisa. O bom livro suspende temporariamente o mundo do leitor, e quando termina, o leitor tem que ir conferir se o mundo continua existindo do mesmo jeito.
A formulação põe o leitor no centro da operação literária, anos antes do desenvolvimento das teorias da recepção. O critério de qualidade do livro, para o jovem Lobato, é o que produz no leitor depois da leitura: o gesto de ir à janela, a desorientação ao reencontrar o mundo, a confirmação de que o mundo seguiu enquanto o leitor estava em outro lugar. A frase é coerente com a posição que o autor sustentaria pela vida toda: o livro é encontro, não objeto isolado.
A escolha das palavras “céu” e “ar” é deliberada. Lobato não diz que o leitor corre à janela para ver se ainda há sol, ou se ainda há rua, ou se ainda há gente. Diz que vai conferir céu e ar — os dois elementos que sustentam a vida orgânica básica. O livro que produz esse gesto é aquele que tira o leitor do ar comum e o devolve a outro ar, ainda que momentaneamente. A ressonância da imagem com a literatura infantil que Lobato produziria a partir de 1920 é direta. O Sítio do Picapau Amarelo é exatamente esse tipo de mundo: lugar onde o leitor entra inteiro, e do qual sai com a sensação de ter retornado de viagem. A frase de 1907, com 25 anos, anuncia o programa de literatura que o autor passaria a executar.
