Ando com ideias dumas coisas Wells
A carta a Godofredo Rangel, escrita em Taubaté em 17 de dezembro de 1905, mostra Lobato aos 23 anos, antes da fazenda no Vale do Paraíba e duas décadas antes de “O Choque das Raças”. O trecho é programa literário:
Ando com ideias dumas coisas Wells, em que entrem imaginação, fantasia e vislumbres do futuro — não o futuro próximo de Julio Verne, futurinho de 50 anos, mas um futuro de mil anos. Vou semear agora essas ideias e deixá-las se desenvolver livremente por dez ou vinte anos — e então limito-me a fazer colheita, caso a plantação subsista até lá.
A distinção entre Verne e Wells é precisa para 1905. Júlio Verne projetava futuro de poucas décadas adiante, com tecnologia em continuidade com a do final do século XIX (submarinos, balões, viagens à Lua). H. G. Wells projetava futuros de séculos ou milênios, com ruptura completa em relação ao presente. “A Máquina do Tempo” (1895) e “Os Primeiros Homens na Lua” (1901) eram leituras correntes do jovem Lobato. A escolha pela linha Wells, no caso, é declaração de poética e não de gosto. Lobato quer o tipo de ficção em que a sociedade futura é radicalmente diferente da presente.
A previsão da própria carreira é metódica e com ironia agronômica. Lobato anuncia que pretende plantar agora as ideias e colher daqui a dez ou vinte anos, caso a plantação subsista. A formulação é coerente com o tempo de fazendeiro, que Lobato seria entre 1911 e 1917. A previsão se cumpre com ajuste de cronograma. “A Onda Verde” (1921), “O Presidente Negro” ou “O Choque das Raças” (1926) e “O Mundo da Lua” (1923) são “coisas Wells” que Lobato escreveu duas décadas depois da carta. A distância entre 1905 e 1926 é exatamente a estimativa que ele faz de antemão. O programa anunciado a Rangel, com 23 anos, foi executado.
