A Velhinha de Taubaté — 'a última pessoa do Brasil que ainda acreditava no governo'
A Velhinha de Taubaté é apresentada por Veríssimo em crônica de 1983 como a única pessoa do Brasil que ainda acreditava no governo. O personagem nasce no governo João Figueiredo, último presidente do regime militar, num momento em que a abertura política convivia com inflação descontrolada e descrédito generalizado das versões oficiais. O nome do livro de 1983, publicado pela L&PM, é o próprio nome da personagem.
A construção do efeito cômico é simples e sustenta-se pela repetição. A velhinha de Taubaté, sempre nominada e sempre situada em Taubaté, vai dizendo concordar com as explicações oficiais para o que cada novo escândalo trouxer à tona. O humor está no contraste entre a credulidade individual — caricaturada num corpo idoso, geográfica e socialmente periférico — e a evidência pública do contrário. Veríssimo retomou a personagem ao longo dos anos 1980, 90 e 2000, atualizando-a a cada ciclo de crise.
A persistência do tipo na linguagem política brasileira é um caso raro de personagem literário virando categoria. “Velhinha de Taubaté” passou a designar, em editorial e conversa, qualquer eleitor que acredita nas versões oficiais quando ninguém mais acredita. Na crônica posterior “A morte da velhinha de Taubaté”, Veríssimo mata a personagem — gesto que ele mesmo reverteu, fazendo-a voltar.
