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❝ Citação

'Roda de carreta chega cantando e se vai gemendo'

A formulação aparece entre as comparações campeiras que o Analista de Bagé usa para comentar comportamento humano nas crônicas reunidas em “O Analista de Bagé” (L&PM, 1981). O personagem inteiro é construído sobre a sobreposição de dois registros incompatíveis: o vocabulário técnico da psicanálise e a fala do interior gaúcho, com bombachas, ditados e expressões herdadas do trabalho com gado e carretas.

A imagem é mecânica. A roda da carreta range de duas formas distintas: cantando (registro alto, seco, ágil) na ida, e gemendo (registro baixo, lento) na volta, quando a carreta vai pesada de carga. O Analista usa o ditado para falar de pessoas que entram alegres em alguma situação e saem reclamando. A formulação tem a economia de um provérbio rural sem a moralidade que costuma fechar provérbio rural — não há recomendação implícita, só o registro de que a coisa é assim.

Veríssimo extrai o ritmo dessas comparações de literatura regionalista anterior — Simões Lopes Neto e Erico Verissimo, o pai — e as ressitua no registro paródico. O Analista usa “carreta” como o psicanalista francês usa “le sujet” ou “le réel”: gesto técnico que mantém a expressão de cara seca apesar da incongruência semântica. Esse choque produz quase todo o humor do livro.