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❝ Citação

'Pela cabeleira, o julgamento é canhestro: pode ser china ou maestro'

A frase é uma das comparações campeiras atribuídas ao Analista de Bagé em “O Analista de Bagé” (L&PM, 1981). A construção é em rima (“canhestro / maestro”) e tem ritmo de provérbio popular gaúcho, com a função pragmática típica do gênero: avisar contra inferência precipitada a partir de signo externo.

A oposição “china” / “maestro” é o motor semântico. “China”, em registro gaúcho, é mulher do interior, geralmente associada a posição social baixa e trabalho rural. “Maestro” é figura urbana, prestigiada, de fraque e batuta. A formulação coloca os dois extremos da escala social do imaginário regional como opções igualmente possíveis para um cabelo comprido, e desautoriza qualquer julgamento por aparência. A rima fecha o argumento sem precisar de moralismo explícito.

Veríssimo está, neste como em outros provérbios do livro, exibindo as travas da leitura imediata de identidade pelo signo visível, em sociedade que ainda opera muito por essa leitura. O Analista de Bagé fala de cabeleira mas o argumento sustenta também roupa, sotaque, sobrenome. Em registro psicanalítico, é diagnóstico de sobreinvestimento simbólico no significante; em registro campeiro, é só conselho prático.