'Ninguém é uma coisa só, nós todos somos muitos'
A frase aparece no conto “Obsessão”, incluído na coletânea “Os últimos quartetos de Beethoven e outros contos”, publicada pela Objetiva em 2013. A coletânea reúne contos de fôlego maior do que a crônica diária e marca uma das incursões tardias de Veríssimo no formato breve mas não jornalístico, mais próximo de Tchekhov do que de Rubem Braga.
O efeito da formulação está na segunda parte. A primeira oração, “ninguém é uma coisa só”, é constatação. A segunda, “nós todos somos muitos”, desloca o argumento da negativa para a afirmativa positiva, e o pluraliza. Veríssimo não escreve “é mais que uma coisa” ou “tem várias facetas”; escreve que cada pessoa é várias pessoas. A figura é mais fundo psicanalítico do que retórico.
A construção é coerente com o interesse do cronista por personagens que se contradizem. As crônicas de Veríssimo costumam dramatizar tipos sociais que cumprem mais de um papel ao mesmo tempo, e parte do humor vem de mostrar que esses papéis se atravessam sem se reconciliar. A frase do conto extrai o pano de fundo conceitual desse procedimento e o deixa em registro afirmativo, sem piada.
