'A minha musa inspiradora é o meu prazo de entrega'
A frase foi dada por Veríssimo à revista IstoÉ na edição 1642. O cronista escreveu coluna diária ou quase diária para Zero Hora, Folha da Manhã, O Globo e Estado de S. Paulo durante mais de cinco décadas, sob ritmo de produção que poucos escritores brasileiros sustentaram. A formulação resume um regime de trabalho em que a inspiração não é precondição para escrever, mas consequência de ter de entregar.
O dito vai contra o senso comum sobre escritor de humor — a expectativa de que o riso requer estado especial, hora de graça, espera. Veríssimo descreve, em registro auto-irônico, o oposto: o motor é o relógio do jornal. A própria palavra “musa” é deslocada do alto romântico para o baixo administrativo, sem ironia explícita, e essa transferência é o que faz a frase funcionar como observação séria sobre ofício.
Veríssimo deu várias entrevistas com diagnóstico semelhante sobre o ritmo de produção, e confessou em mais de uma ocasião que tinha dificuldade em produzir fora de jornal. A coluna fixa era estrutura, não constrangimento. O modelo é coerente com o que se vê em cronistas de geração anterior, como Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, que também sustentaram a obra a partir do calendário do jornal e não da agenda do livro.
