'Toda escolha é uma renúncia' — apócrifa, atribuída a Luis Fernando Veríssimo
A formulação “toda escolha é uma renúncia” (e variante “cada escolha, uma renúncia”) circula em blogs devocionais, posts de LinkedIn e perfis de auto-ajuda em português brasileiro, frequentemente atribuída a Luis Fernando Veríssimo. A atribuição não foi verificada em nenhuma das obras do cronista. Não há registro do enunciado em “Comédias da Vida Privada”, “As Mentiras que os Homens Contam”, “O Analista de Bagé” ou nas colunas de jornal acessíveis em pesquisa.
O conceito de que toda escolha implica renúncia tem genealogia anterior à internet e à literatura brasileira. Aparece em ascética cristã medieval — a escolha por Deus implica renúncia ao mundo —, em existencialismo francês do século XX (Sartre formula em registro próximo, sem a sentença exata) e em filosofia da decisão econômica como custo de oportunidade. A versão popularizada no Brasil é provavelmente de pregação evangélica ou de literatura motivacional anos 1990-2000, não de Veríssimo.
O conjunto de frases motivacionais com tom melancólico-otimista atribuídas a Veríssimo é grande. O próprio cronista disse em 2011 à Playboy que quatro em cada cinco textos atribuídos a ele na internet não eram dele. “Toda escolha é uma renúncia” entra nessa estatística. A atribuição funciona porque Veríssimo, na cabeça do leitor médio, é “o cara das frases bonitas em português”, categoria editorial que jamais foi a sua nem em entrevista nem em livro.
