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As Cobras de Veríssimo — duas serpentes filosofando sobre o universo

A nota documenta a estrutura formal de “As Cobras”, série de quadrinhos publicada por Veríssimo em jornais brasileiros entre 1975 e 1997, primeiro em Folha de S. Paulo, depois em Zero Hora e em vários outros, e reunida em coletânea pela L&PM em 1997 sob o título “As Cobras em: Se Deus existe que eu seja atingido por um raio”. A tira tem dois personagens: duas cobras sem nome, em vinheta única ou em sequências curtas, geralmente diante de um fundo neutro de pedra ou pasto.

A função das duas cobras é teológica. Veríssimo declarou preferir as tiras filosóficas, em que as cobras comentam “a insignificância dos répteis, incluindo os répteis humanos, diante do Universo”. O dispositivo é antigo e remete ao diálogo socrático e a Lúcio Anêu Sêneca: dois falantes que se distinguem pouco, alternando perguntas e afirmações que ninguém na cena toma como insolentes. As cobras, sendo cobras, podem perguntar sobre Deus sem que isso configure heresia humana; a posição não-humana do falante autoriza a heterodoxia.

Durante a ditadura, as cobras serviram de suporte para sátira política em registro permitido pela censura. Veríssimo descreveu o procedimento como “serpentear livremente” entre censura e teoria de conspiração. O título da coletânea de 1997, “Se Deus existe que eu seja atingido por um raio”, reproduz a fórmula de juramento popular brasileiro, e a aplica em registro existencialista. A coletânea de 50 anos da tira foi publicada com 470 tiras reunidas.