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❝ Citação

'Nada separa as classes como a língua. Fora a renda, claro'

A frase aparece na entrevista de Veríssimo a Luiz Costa Pereira Jr., publicada em outubro de 2005. O assunto da entrevista é português brasileiro, registro popular e norma culta. A formulação combina diagnóstico sociolinguístico clássico, em que a língua é vetor de pertencimento e exclusão, com a ressalva que o restabelece no plano material.

O efeito é construído pelo “fora a renda, claro”. A primeira oração faz uma afirmação de aparência soberana, do tipo que circula em livros de divulgação sobre poder e linguagem. A segunda dissolve o tom autoritativo: a língua separa, sim, mas a renda separa primeiro. A vírgula final (“claro”) fecha o gesto auto-irônico, sugerindo que a afirmação inicial já se sabia parcial. O cronista preserva a intuição linguística e ao mesmo tempo a recoloca debaixo da economia política.

Esse tipo de movimento, em que afirma com força e desmonta com leveza, é uma assinatura de Veríssimo em comentário público. A construção remete ao que ele faz nas crônicas: tese curta, contra-tese curta, e descarte do moralismo via humor. A ressalva impede que a frase vire palanque sociolinguístico romântico, e mantém a distância do tipo de prosa que celebra a fala popular sem mencionar quem paga o aluguel.