人之生也柔弱,其死也堅強 — O vivo é mole e fraco, o morto é duro e firme
人之生也柔弱,其死也堅強。萬物草木之生也柔脆,其死也枯槁。故堅強者死之徒,柔弱者生之徒。
Cap. 76. Tradução de D. C. Lau: “A man is supple and weak when living, but hard and stiff when dead. Grass and trees are pliant and fragile when living, but dried and shrivelled when dead. Thus the hard and the strong are the comrades of death; the supple and the weak are the comrades of life.”
O argumento parte de observação fisiológica banal — o cadáver enrijece, o corpo vivo flexiona, a planta seca racha — e generaliza para uma tese cosmológica: 堅強者死之徒,柔弱者生之徒, “o duro-firme é da família da morte, o mole-fraco é da família da vida”. O capítulo é a contraparte fisiológica do cap. 78 (a água vence o duro) e do cap. 40 (a fraqueza é o uso do dào). Não é metáfora moral — é descrição da economia da matéria viva.
A leitura militar do capítulo é tradicional na China. O fecho 強大處下,柔弱處上 (“o forte e grande estão por baixo, o flexível e fraco estão por cima”) foi lido pelos comentadores como referência à árvore — o tronco rígido fica embaixo, os ramos flexíveis no alto, e o ramo flexível é o que recebe a luz e produz o fruto. Sun Bin e a tradição militar tardia (Wei Liaozi, Liu Tao) absorvem a tese: o exército inflexível, com formações fixas, é vulnerável; o exército flexível, que se rearranja com a situação, sobrevive. A. C. Graham observa que o capítulo é uma das poucas passagens do Dào Dé Jīng em que o vocabulário se aproxima diretamente do tratado militar.
A recepção contemporânea é importante para a teoria do envelhecimento e para a filosofia da prática corporal. As artes marciais chinesas (tàijí quán especialmente) explicitam a tese — a maciez (róu, 柔) é fonte de poder, a rigidez (gāng, 剛) é índice de declínio. A tradição do taiji opõe-se ao kung fu duro (hard styles) precisamente nesta linha argumentativa, e remete o leitor ao cap. 76 com regularidade.
