三十輻共一轂 — Trinta raios convergem num eixo, e é o vazio que faz a roda servir
三十輻,共一轂,當其無,有車之用。埏埴以為器,當其無,有器之用。鑿戶牖以為室,當其無,有室之用。故有之以為利,無之以為用。
Cap. 11, na tradução de Legge: “The thirty spokes unite in the one nave; but it is on the empty space (for the axle), that the use of the wheel depends.” Três imagens encadeadas — roda, vaso de cerâmica, cômodo aberto por porta e janela — sustentam a mesma estrutura argumentativa: o material gera lì (利, vantagem, benefício); o vazio que o material delimita gera yòng (用, uso, função efetiva).
A linha final, 故有之以為利,無之以為用, é uma das definições operativas mais claras de 無 (wú, não-ser, vazio) no corpus do Dào Dé Jīng. Wang Bi comenta que yǒu (有, ser) e wú dependem um do outro — sem material, não há vazio delimitado; sem vazio, o material não tem função. A leitura é estrutural antes de mística. François Cheng (Vide et plein, 1979) usou o capítulo como porta de entrada para sua teoria da pintura chinesa: o branco do papel não é ausência de pintura, é o operador que faz a tinta significar.
A recepção contemporânea do capítulo no design e na arquitetura é direta. Tadao Ando, Kenya Hara e a tradição do ma (間, intervalo) japonês remetem explicitamente à imagem do cômodo do Dào Dé Jīng. O argumento de Heidegger em “Das Ding” (1950) sobre a coisidade do jarro — o jarro coisifica enquanto vaso vazio que recebe e oferece — é estruturalmente paralelo, e Heidegger conhecia o capítulo pela tradução de Hsiao.
