我有三寶 — Tenho três tesouros: compaixão, frugalidade, não querer ser o primeiro
我有三寶,持而保之。一曰慈,二曰儉,三曰不敢為天下先。
Cap. 67. Tradução de Legge: “I have three precious things which I prize and hold fast. The first is gentleness; the second is economy; and the third is shrinking from taking precedence of others.” Os três tesouros (三寶, sān bǎo) são uma das poucas listas explícitas de virtude no Dào Dé Jīng — texto que em geral evita codificações.
慈 (cí) é compaixão maternal, ternura que protege; o caractere tem o radical do coração e funciona em chinês clássico mais como afeto filial do que como benevolência abstrata. 儉 (jiǎn) é parcimônia, frugalidade, não acumulação. 不敢為天下先 (bù gǎn wéi tiānxià xiān) é “não ousar ser o primeiro do mundo”, recuo deliberado da posição de liderança. O capítulo prossegue com uma cadeia de implicações — a compaixão dá coragem, a parcimônia dá generosidade, o não-pretender-ser-primeiro dá capacidade de governar — e fecha com a advertência: 今舍慈且勇,舍儉且廣,舍後且先,死矣 (“hoje os homens abandonam a compaixão pela coragem, a parcimônia pela amplitude, o recuo pela frente: morte certa”).
A leitura tradicional posiciona os três tesouros como contraponto às virtudes confucianas (rén, yì, lǐ, zhì, xìn). Não há benevolência humanista nem justiça impessoal nem ritualismo — há ternura corpórea, sobriedade material e retração estratégica. A tradição taoísta religiosa (Dàojiào) posterior absorveu o termo sān bǎo em sentido cultual: as três jóias passam a designar o trio jīng-qì-shén (精氣神, essência-energia-espírito) na alquimia interna. A leitura filosófica de Wang Bi mantém o sentido ético do capítulo. Roger Ames sublinha o paralelo do terceiro tesouro com o cap. 7 e o cap. 66 — o sábio coloca-se atrás e por isso vai à frente.
