知足不辱 — Quem sabe o que basta não conhece humilhação
名與身孰親?身與貨孰多?得與亡孰病?是故甚愛必大費;多藏必厚亡。知足不辱,知止不殆,可以長久。
Cap. 44. Tradução de Legge: “Or fame or life, which do you hold more dear? Or life or wealth, to which would you adhere? Keep life and lose those other things; keep them and lose your life — which brings sorrow and pain more near?” A construção é dialética: três perguntas em paralelo, seguidas de duas constatações sobre o custo do excesso, fechadas pela máxima dupla zhīzú-zhīzhǐ (saber o que basta — saber onde parar).
A locução 知足 (zhīzú, saber o suficiente) tornou-se locução fixa em chinês — frequentemente abreviada na fórmula 知足常樂 (“quem sabe o que basta sempre é feliz”), atribuída popularmente ao Dào Dé Jīng embora a forma exata seja Tang ou posterior. O capítulo 44 contém a formulação mais antiga e atestada. O argumento é prático: o apego excessivo (甚愛, shèn ài) gera grande gasto; o acúmulo (多藏, duō cáng) gera grande perda. A. C. Graham observa que o cálculo é deliberadamente invertido em relação à lógica utilitária — o que parece ganho é dispêndio, o que parece reserva é vazamento.
O capítulo dialoga com o cap. 33 (zhī zú zhě fù, “quem sabe o que basta é rico”) e com o cap. 46 (zuì mò dà yú bù zhī zú, “não há culpa maior que não saber o que basta”). A trinca constitui um dos núcleos éticos do livro, frequentemente isolado pelos comentadores como Lǎozǐ de jīngjì (老子的經濟, “a economia de Lao Tzu”) — não no sentido moderno do termo, mas como teoria da medida correta entre desejo e recurso. A versão de Stephen Mitchell elide as três perguntas iniciais e parafraseia direto o fecho — leitura motivacional que perde o quadro retórico do dilema.
