失道而後德,失德而後仁 — Perdido o Tao, vem a virtude; perdida a virtude, vem a benevolência
故失道而後德,失德而後仁,失仁而後義,失義而後禮。
Cap. 38, abertura da segunda parte do livro recebido (a parte Dé, 德經). Tradução de Legge: “Thus it was that when the Tao was lost, its attributes appeared; when its attributes were lost, benevolence appeared; when benevolence was lost, righteousness appeared; and when righteousness was lost, the proprieties appeared.” A sequência 道 → 德 → 仁 → 義 → 禮 descreve uma cadeia de degenerações em que cada termo emerge como compensação artificial pela perda do anterior.
A leitura é programaticamente anti-confuciana. Rén (仁), yì (義) e lǐ (禮) são as três virtudes cardinais do projeto confuciano. O capítulo 38 trata-as como sintoma — quando a comunidade já não vive na espontaneidade do dào e do dé, é preciso prescrever benevolência; quando a benevolência se perde, prescreve-se justiça; quando a justiça se perde, restam os ritos como casca formal. Os manuscritos de Mawangdui (escavados em 1973, datados c. 168 a.C.) abrem o livro inteiro com este capítulo — a ordem é Dé-Dào, invertida em relação à versão Wang Bi. Robert Henricks (Lao-Tzu: Te-Tao Ching, 1989) defende que a ordem Mawangdui é editorialmente mais coerente, com o ataque ao ritualismo confuciano como pórtico.
A polêmica histórica entre taoismo e confucionismo passa por este capítulo. Han Fei (séc. III a.C.), no comentário 解老 (Jiě Lǎo), lê a sequência como argumento legalista: se as virtudes confucianas já são compensações tardias, melhor ainda seria substituí-las pela lei (fǎ 法) impessoal. A. C. Graham (Disputers of the Tao, 1989) mostra como o capítulo dialoga com debates do período Estados Combatentes em que mohistas, confucianos e proto-legalistas disputavam qual nível da cadeia ainda era recuperável. A versão de Stephen Mitchell suaviza o ataque, traduzindo lǐ como “ritual” sem o tom polêmico — perde-se o gume.
