太上,下知有之 — Do governante mais alto o povo apenas sabe que existe
太上,下知有之;其次,親而譽之;其次,畏之;其次,侮之。… 功成事遂,百姓皆謂我自然。
Cap. 17. A tradução de D. C. Lau dispõe a hierarquia em quatro degraus: do melhor governante o povo mal sabe que ele existe; do segundo, ama-o e elogia-o; do terceiro, teme-o; do quarto, despreza-o. O fecho do capítulo, 百姓皆謂我自然, é traduzido por Lau como “the people all say, ‘It happened to us naturally.’” — quando a obra se consuma, o povo atribui o resultado à zìrán (自然), à própria espontaneidade.
O capítulo é peça-chave da teoria política taoísta. Não prescreve anarquia nem ausência de governo — prescreve um tipo de governo cuja virtude é não aparecer como agência externa. Hans-Georg Moeller (The Philosophy of the Daodejing, 2006) leu o capítulo em paralelo com a teoria sistêmica de Niklas Luhmann: o sábio governante opera como ambiente que permite a auto-organização do sistema social, em vez de como centro que impõe a sua vontade. A versão popular de Stephen Mitchell (“when the master governs, the people are hardly aware that he exists”) parafraseia bem o sentido, mas Mitchell não traduz o termo zìrán — perde-se a articulação central com o capítulo 25 (dào fǎ zìrán, “o caminho segue o que é por si mesmo”).
A leitura de Wang Bi, recebida pela tradição, sublinha que os quatro graus correspondem a quatro modos de relação com o dào: o primeiro governa pela virtude do não-fazer e portanto desaparece como agente; o segundo governa pelo rén (仁, benevolência) confuciano e por isso é amado; o terceiro pela lei e pelo medo, ao modo legalista; o quarto pela violência e pela mentira, e portanto desabilita-se como autoridade.
