反者道之動 — A reversão é o movimento do Tao
反者道之動;弱者道之用。天下萬物生於有,有生於無。
Cap. 40 (na ordem Wang Bi; cap. 4 na seção Dé dos manuscritos de Mawangdui). Quatro linhas, vinte e um caracteres — o capítulo mais curto e um dos mais densos do livro. Tradução de D. C. Lau: “Turning back is how the way moves; weakness is the means the way employs. The myriad creatures in the world are born from something, and something from nothing.”
A primeira linha, 反者道之動 (fǎn zhě dào zhī dòng), tem dupla leitura tradicional. Fǎn (反) significa “voltar, retornar” e também “inverter, contrariar”. Wang Bi lê primariamente como retorno — o dào opera fazendo as coisas voltarem ao seu ponto de origem. Heshang Gong abre para a leitura da inversão — o dào faz o forte virar fraco, o pleno virar vazio. As duas leituras não são exclusivas: o retorno é a forma mais radical de inversão. Roger Ames traduz como “reversal” para preservar a ambiguidade.
A segunda linha, 弱者道之用 (“a fraqueza é o uso do dào”), articula com o cap. 78 (a água, mais fraca, vence o duro) e com o cap. 76 (o duro morre, o flexível vive). A formulação de Lau como the means the way employs é mais rigorosa que as versões populares — yòng (用) aqui é uso, função, instrumento operativo. Não é exortação ao quietismo: é descrição do modo como o dào age no mundo.
A linha final, 有生於無 (“o ser nasce do não-ser”), é o ponto em que o capítulo entra no debate ontológico chinês. Wang Bi tomou-a como tese central de sua filosofia xuánxué (玄學, séc. III d.C.) e construiu sobre ela uma metafísica do wú como fundamento ontológico. A leitura xuánxué tornou-se influente no século III mas é deslocada pela tradição posterior — Guo Xiang (séc. IV), comentando Zhuangzi, recusa a hierarquia e propõe que yǒu e wú coemergem sem precedência. A Mawangdui tem variante: 天下之物生於有,生於无 (“as coisas nascem do ser, nascem do não-ser”) — sem a hierarquia “yǒu nasce do wú”. Henricks defende que a versão Mawangdui pode ser textualmente anterior e teologicamente menos comprometida.
