Ir para o conteúdo principal

← todas as notas

❝ Citação

道可道,非常道 — O Tao que pode ser dito não é o Tao constante

道可道,非常道。名可名,非常名。無名天地之始;有名萬物之母。

Abertura do Dào Dé Jīng. Tradução literal de D. C. Lau (Penguin, 1963): “The way that can be spoken of is not the constant way; the name that can be named is not the constant name.” A versão Wang Bi (王弼, séc. III d.C.) é a recebida pela tradição. Os manuscritos de Mawangdui (馬王堆, escavados em 1973, datados c. 168 a.C.) e Guodian (郭店, escavados em 1993, datados c. 300 a.C.) confirmam a estabilidade da linha de abertura — o segundo dào da frase é o verbo “dizer/falar”.

A leitura tradicional é dupla. Wang Bi glosa o primeiro dào como o caminho ontológico e o segundo como o ato de nomeá-lo. Heshang Gong (河上公, comentador Han) insiste no plano da prática: o caminho que se ensina como técnica ainda não é o caminho. Roger Ames e David Hall (Daodejing: A Philosophical Translation, 2003) preferem traduzir como “way-making” — dào não é substância nominal mas atividade processual, o que muda toda a leitura subsequente do livro.

A linha foi recebida em três tradições filosóficas ocidentais. Heidegger transcreveu trechos do livro com Paul Shih-Yi Hsiao em 1946 e usou dào como contraponto à Lichtung — o caminho que se abre sem se mostrar. Cioran, em De l’inconvénient d’être né, cita o primeiro capítulo para sustentar que toda metafísica termina no balbucio. A apropriação contemporânea pela ecologia profunda (Arne Naess) foca no segundo verso — o nome cria a separação, e a separação cria os dez mil seres.