報怨以德 — Responder ao ressentimento com virtude
為無為,事無事,味無味。大小多少,報怨以德。
Cap. 63. Tradução de Legge: “(It is the way of the Tao) to act without (thinking of) acting; to conduct affairs without (feeling the) trouble of them; to taste without discerning any flavour… It is the way of the Tao to recompense injury with kindness.” A frase 報怨以德 (bào yuàn yǐ dé, “retribuir a ofensa com virtude”) é uma das mais discutidas do livro pela colisão direta com a posição confuciana.
O Lùn Yǔ (論語, Analectos) 14.34 registra o seguinte diálogo: alguém pergunta a Confúcio “Como tratar quem nos faz mal? Devemos responder com benevolência (以德報怨)?”. Confúcio responde com aspereza: “Se respondes ao mal com benevolência, com que respondes à benevolência? Responde ao mal com justiça (以直報怨), e à benevolência com benevolência (以德報德).” A. C. Graham (Disputers of the Tao, 1989) e D. C. Lau argumentam que a passagem confuciana é resposta direta ao Dào Dé Jīng — Confúcio (ou seu redator) parece estar refutando a fórmula do cap. 63 como sentimentalismo desordenado.
A questão filológica é se o Dào Dé Jīng propõe a frase como prescrição moral ou como descrição estratégica. Wang Bi lê como ética — o sábio cancela o ressentimento pela via do dé, não retribui ofensa por ofensa. Han Fei (séc. III a.C.), no comentário 解老 (Jiě Lǎo), lê de modo legalista — não retribuir o mal com mal é técnica de governo, não compaixão. O capítulo continua, no original, com 大小多少 (“grande-pequeno, muito-pouco”) e a doutrina de antecipar o difícil enquanto ainda fácil — leitura que aproxima Han Fei: o sábio dissolve a ofensa na sua origem mole.
A recepção comparativa do capítulo no Ocidente foi imediata. Os jesuítas do séc. XVII (Couplet, Intorcetta) leram a frase como paralelo evangélico do amai os vossos inimigos. A. C. Graham mostra que o paralelismo é superficial — o gesto cristão de retribuir o mal com bem é fundado em mandamento divino e amor; o gesto taoísta é fundado na economia interna do dé, em que cancelar a ofensa é forma de não a alimentar.
