Ir para o conteúdo principal

← todas as notas

❝ Citação

為學日益,為道日損 — No estudo se acrescenta cada dia; no Tao se perde cada dia

為學日益,為道日損。損之又損,以至於無為。無為而無不為。

Cap. 48. Tradução de Legge: “He who devotes himself to learning seeks from day to day to increase his knowledge; he who devotes himself to the Tao seeks from day to day to diminish his doing.” A construção é simétrica e brutal — wèi xué (做學, fazer-estudo) acumula, wèi dào (為道, fazer-caminho) subtrai. O fecho 無為而無不為 é um dos paradoxos mais citados do livro: “não-fazer e nada deixa de ser feito”.

O capítulo opõe-se direta e abertamente ao programa confuciano da Grande Aprendizagem (大學, Dà Xué) e do Lùn Yǔ, em que a virtude se constrói por estudo cumulativo (學而時習之, “estudar e praticar a tempo certo”). O autor (ou autores) do Dào Dé Jīng propõe método inverso: subtrair de novo e de novo (損之又損) o que se acumulou em opiniões, distinções, intervenções, até chegar à condição em que a ação flui sem o sujeito que a planeja. Roger Ames e David Hall (Daodejing: A Philosophical Translation, 2003) traduzem wú-wéi como “non-coercive action” — não a ausência de ação, mas a ação que não força.

A recepção budista do capítulo é importante. Quando o budismo Chan se constituiu na China dos séculos VI-VII, a expressão wú-wéi foi um dos vetores pelos quais o vocabulário taoísta entrou na tradução do termo sânscrito asaṃskṛta (não-condicionado). A leitura zen posterior do “perder cada dia” como prática de zazen é desenvolvimento dessa transferência. Cioran, n’O Inconveniente de ter Nascido, cita o capítulo 48 como diagnóstico da civilização ocidental: “incapazes de perder, ganhamos sempre algo, inclusive doenças”. A leitura de Mitchell (“in the pursuit of learning, every day something is acquired; in the pursuit of Tao, every day something is dropped”) é fiel ao sentido geral mas elegantiza a aspereza do verbo sǔn (損, ferir, prejudicar, diminuir).