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A vida não é útil — Ailton Krenak

Ailton Krenak desconstrói a ideia do utilitarismo do existir: a vida não deve ser reduzida à lógica mercantil de fazer coisas “úteis” para “ganhar mais” — esse modo de vida “devora o planeta” e anuncia fins de mundo que em muitos lugares já ocorreram.

“A vida não é útil e não deve sê-lo. Por que insistimos em transformar a vida em uma coisa útil? Nós temos que ter coragem de ser radicalmente vivos, e não ficar barganhando a sobrevivência.”

Sobre o empreendedorismo: desde o fim do século 20 vivemos a fúria de todos virarem empresários de si. Muitos abandonam a vida de verdade por um simulacro e descobrem o erro tarde demais. “A ideia do empreendedorismo é o novo pensamento do capitalismo, é para que você se torne escravo de si.”

Sobre 2020 como “ano perdido”: não é possível imaginar que um ano seja perdido. Foi um ano cheio de instrução — a lição indelével é que habitamos o mesmo planeta e precisamos diminuir nossa predação sobre ele.

Sobre a lagarta: “A lagarta é um conjunto de tubos digestivos que devora, devora, devora até morrer. Depois vira borboleta, mas não lembra que foi lagarta. É metamorfose. A natureza ensina. Viver não é empreender.”

Sobre os krenaks e o Rio Doce, após o desastre de Mariana: decidiram não sair, vivenciar integralmente a experiência do desastre. “Ou toda vez que você vê um deserto você sai correndo? Quando aparecer um deserto, o atravesse.”