He tempo, e mais que tempo, que acabemos com hum trafico tão bárbaro e carniceiro
A passagem completa: “He preciso que não venhão mais a nossos portos milhares e milhares de negros, que morrião abafados no porão de nossos navios, mais apinhados que fardos de fazenda: he preciso que cessem de huma vez todas essas mortes e martirios sem conto, com que flagellavamos e flagellamos ainda esses desgraçados em nosso próprio território. He tempo pois, e mais que tempo, que acabemos com hum trafico tão bárbaro e carniceiro.”
A imagem dos cativos “apinhados que fardos de fazenda” no porão dos navios negreiros documenta a Middle Passage com vocabulário comercial — fazenda no sentido oitocentista de mercadoria têxtil. Bonifácio escreve em 1823 quando o tráfico ainda é legal no Brasil; a abolição efetiva do tráfico só viria com a Lei Eusébio de Queirós (1850), depois de pressão britânica e do Bill Aberdeen (1845). O Brasil é, no momento da Representação, “a única Nação de sangue Europeo que ainda commercia clara e publicamente em escravos Africanos” — afirmação textual do mesmo capítulo.
A força argumentativa vem do duplo vínculo: o tráfico é violação cristã (contra “as santas máximas do Evangelho”) e violação política (contra “as leis de huma sãa política”). O texto não separa o registro religioso do registro econômico, sinal de que para Bonifácio a abolição é projeto unificado de civilização e formação nacional, não causa setorial.
