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❝ Citação

Forão os Portuguezes os primeiros que, desde o tempo do Infante D. Henrique, fizerão hum ramo de commercio legal de prear homens livres

A passagem completa: “Com effeito, Senhores, Nação nenhuma talvez peccou mais contra a humanidade do que a Portugueza, de que faziamos outr’ora parte. Andou sempre devastando não só as terras d’Africa e d’Azia, como dice Camões, mas igualmente as do nosso Paiz. Forão os Portuguezes os primeiros que, desde o tempo do Infante D. Henrique, fizerão hum ramo de commercio legal de prear homens livres, e vendel-os como escravos nos mercados Europeos e Americanos.”

A acusação tem força particular pelo lugar de quem fala. Bonifácio é português de nascimento; nasceu em Santos, então parte do Império Português, em 1763. Formou-se em Coimbra, fez carreira científica e administrativa em Portugal por trinta anos antes de retornar ao Brasil em 1819. A frase “de que faziamos outr’ora parte” inscreve a separação política recente (1822) e marca a posição do autor como brasileiro do Império independente, não como antigo súdito a se distanciar de identidade compartilhada.

A referência a Henrique de Avis, o Infante D. Henrique (1394-1460), é historicamente acurada. As primeiras expedições portuguesas a capturar africanos para venda começaram nos anos 1440 sob seu comando, e o cronista Gomes Eanes de Zurara registrou em 1453 a chegada de cativos a Lagos. Quando Bonifácio escreve a Representação, em 1823, o tráfico atlântico já dura quase quatrocentos anos. A invocação de Camões (“como dice Camões”) remete provavelmente a passagens d’Os Lusíadas sobre conquistas atlânticas, embora o texto não cite estrofe. Bonifácio era estudioso do poema e traduziu o canto IV durante o exílio em Bordeaux.