Se os negros são homens como nós, e não formão huma espécie de brutos animaes; se sentem e pensão como nós
A passagem completa: “Se os negros são homens como nós, e não formão huma espécie de brutos animaes; se sentem e pensão como nós, que quadro de dor e de miséria não apresentão elles á imaginação de qualquer homem sensivel e christão? Se os gemidos de hum bruto nos condóem, he impossível que deixemos de sentir também certa dor sympathica com as desgraças e misérias dos escravos.”
A construção condicional é deliberada. Bonifácio enuncia em forma hipotética uma proposição que, no contexto, ele toma como certa: os negros são homens como os senhores. A retórica do si serve para forçar o ouvinte a explicitar, mesmo silenciosamente, sua adesão à premissa. Quem aceita o condicional fica obrigado, no encadeamento, à conclusão abolicionista. É manobra dialética que Bonifácio usa em vários pontos da Representação.
A passagem também antecipa o argumento sentimentalista do abolicionismo do XIX, em que a “dor sympathica” funciona como vínculo moral entre observador e cativo. Esse registro Lincoln, Wilberforce e os sentimentalistas norte-americanos popularizariam nas décadas seguintes. No artigo XV dos artigos finais Bonifácio reconhece consequência prática: “Os escravos podem testemunhar em juizo, não contra os próprios senhores, mas contra os alheios”. A humanidade reconhecida exige, gradualmente, capacidade civil reconhecida.
