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❝ Citação

Parece muito útil, até necessário, que se edifique uma nova capital do Império no interior do Brasil

A passagem completa: “Parece muito útil, até necessário, que se edifique uma nova capital do Império no interior do Brasil para assento da corte, da assembleia legislativa e dos tribunais superiores, que a Constituição determinar.” A proposta de nome aparece logo a seguir: “Esta cidade poderia chamar-se Petrópolis ou Brasília”.

O texto é o primeiro registro documental do topônimo “Brasília” associado a uma capital interiorana. A Memória foi apresentada à Constituinte em 9 de junho de 1823, cinco meses antes da dissolução da Assembleia. Bonifácio articula o argumento geopolítico: a capital litorânea é exposta a invasões, atrai concentração demográfica improdutiva, e isola o Estado do interior do território. A nova capital “deve ficar equidistante dos limites do Império tanto em latitude como em longitude” — formulação que ressurgiria, com formato semelhante, na proposta da Comissão Cruls (1894) e finalmente na cidade construída por Juscelino Kubitschek e inaugurada em 21 de abril de 1960.

A precedência historiográfica é significativa. O Hino da Inconfidência Mineira (1789) já fazia referência a uma capital simbólica no centro do território, e o nome “Brasília” aparece, antes de Bonifácio, em escritos isolados. Mas a proposta de 1823 é a primeira formulação parlamentar do projeto, articulada em texto técnico-político por figura pública de primeira grandeza. Os 137 anos entre a proposta e a execução fazem da Memória um dos textos mais citados quando se discute a longa duração de projetos institucionais brasileiros — Joaquim Nabuco, Sílvio Romero, Cassiano Ricardo e os modernistas dos anos 1920 retomariam o tema antes de Kubitschek.