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❝ Citação

Para que venhamos a formar em poucas gerações huma Nação homogênea, sem o que nunca seremos verdadeiramente livres

A passagem completa: “He tempo também que vamos acabando gradualmente até os últimos vestigios da escravidão entre nós, para que venhamos a formar em poucas gerações huma Nação homogênea, sem o que nunca seremos verdadeiramente livres, respeitáveis e felizes. He da maior necessidade ir acabando tanta heterogeneidade physica e civil; cuidemos pois desde já em combinar sabiamente tantos elementos discordes e contrários, e em amalgamar tantos metaes diversos, para que saia hum Todo homogêneo e compacto.”

O vocabulário é mineralógico-químico. Bonifácio era cientista — formado em Coimbra, professor de metalurgia, membro da Royal Society e da Academia de Ciências de Paris — e o léxico das ciências naturais aparece com frequência na sua argumentação política. “Amalgamar metaes” remete ao processo metalúrgico de fusão de ligas, e “Todo homogêneo e compacto” ecoa a linguagem da resistência mecânica de materiais. A nação aparece como composição química a estabilizar, não como herança a preservar.

A formulação tem leitura ambígua para o leitor contemporâneo. “Heterogeneidade physica e civil” inclui, sem distinção clara, diferenças étnicas, jurídicas e culturais. Bonifácio pensa a homogeneização nacional pela via da miscigenação dirigida (a tese aparece com mais explicitude nos Apontamentos para a Civilização dos Índios Bravos, do mesmo ano), com pressuposto de que o “elemento branco e civilizador” predomina. É posição comum a quase todo o pensamento ilustrado do período, e antecipa, no léxico, a ideologia da “democracia racial” formulada um século depois — embora, em Bonifácio, ainda esteja amarrada ao programa abolicionista, não à sua negação.