Não pode progredir e civilisar-se sem cortar, quanto antes, pela raiz este cancro mortal
A frase abre a Advertência editorial do texto: “Isto suposto, qualquer que seja a sorte futura do Brasil, elle não pode progredir e civilisar-se sem cortar, quanto antes, pela raiz este cancro mortal, que lhe roe e consome as ultimas potências da vida, e que acabará por lhe dár morte desastrosa.” A figura do cancro, palavra do registro médico do tempo, reaparece em outras passagens da Representação, sempre aplicada à escravidão como instituição.
A Representação foi escrita por José Bonifácio em 1823 para apresentação à Assembleia Geral Constituinte do Império do Brasil, da qual era deputado por São Paulo. A Constituinte foi dissolvida por D. Pedro I em 12 de novembro de 1823, antes que o texto fosse lido. Bonifácio foi preso e deportado, e o opúsculo só veio a público em 1825, em Paris, na Tipografia Firmin Didot, durante seu exílio em Bordeaux. A Advertência é assinada apenas com as iniciais “A. D.”.
O texto é considerado o primeiro programa abolicionista brasileiro de envergadura, anterior em quase quarenta anos à Lei do Ventre Livre (1871). Bonifácio não defendia abolição imediata; o texto é explícito quanto à gradualidade, mas combinava o argumento moral cristão com o econômico-político, antecipando o vocabulário do abolicionismo da segunda metade do XIX. A figura do “cancro” reapareceria em Joaquim Nabuco e em outros abolicionistas posteriores.
