O Rio que eu conheci não existe mais
A frase “O Rio que eu conheci não existe mais. Como disse o Eumir Deodato para mim lá em Nova York… ‘A música, tal qual como a conhecíamos, não mais existe’” foi dita por Tom Jobim ao Roda Viva da TV Cultura, em 20 de dezembro de 1993, em resposta a Julio Medaglia. A formulação está registrada na transcrição oficial do Memória Roda Viva (entrevista de 1993).
A construção é de duas perdas paralelas. O Rio físico, com suas dunas de Ipanema, suas meninas que eram “uma meia dúzia no máximo” (formulação que aparece em outro trecho da mesma entrevista, em resposta também a Medaglia, sobre o ambiente em que a bossa nova nasceu) e suas ruas baixas, foi substituído por outra cidade. A música popular brasileira, isto é, a tradição harmônico-melódica de Pixinguinha, Ary Barroso, da bossa nova, foi substituída por outra coisa. Jobim cita Eumir Deodato (compositor e arranjador brasileiro radicado nos Estados Unidos) para emprestar autoridade ao segundo diagnóstico.
O paralelismo cidade-música funciona como tese: a obra de Jobim é tributária de um Rio específico que terminou. A bossa nova, conforme ele explica em outros trechos da mesma entrevista, era música feita por moradores de uma faixa estreita de Ipanema-Copacabana-Leblon, num momento de prosperidade urbana. O fim daquela cidade, que Jobim atribui implicitamente ao crescimento descontrolado, à degradação ambiental e à mudança demográfica, implica o fim do contexto que produziu seu repertório. A frase é descrição, não lamento ostensivo: o Rio que ele cantou na obra deixou de existir, e o Rio onde mora em 1993 é outro.
