Ir para o conteúdo principal

← todas as notas

❝ Citação

Tristeza não tem fim, felicidade sim

“Tristeza não tem fim, felicidade sim” abre “A Felicidade”, composta em 1958 por Antônio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes a pedido do produtor francês Sacha Gordine, que queria material novo para Orfeu Negro mesmo após o uso de canções de Orfeu da Conceição (peça de 1956). Segundo o verbete em português da Wikipédia (A Felicidade), citando Ruy Castro, a dupla escreveu três músicas “majoritariamente por telefone”, com Vinicius servindo no Itamaraty em Montevidéu. A canção abre os créditos do filme, na voz de Agostinho dos Santos com Roberto Menescal ao violão.

A frase de abertura inverte a expectativa moralista. Tristeza, na arquitetura do verso, é o estado contínuo; felicidade, o estado interrompido. O eixo afetivo da canção e do filme decorre dessa premissa: a felicidade é frágil porque é, por definição, o que termina. A formulação aparece também na página oficial de Vinicius de Moraes no Facebook (post arquivado) e é confirmada como abertura literal do texto em fontes secundárias. O resto da letra explicita o argumento por imagens — gota de orvalho, pena ao vento, fantasia do pobre no Carnaval — mas a tese está toda no primeiro verso.

A trajetória industrial da canção embaralha o crédito autoral. A gravação de Agostinho no filme entrou em circulação internacional sob o título Orfeu Negro, vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 1959 e do Oscar de filme estrangeiro em 1960. Versões em outras línguas surgiram (em francês como “Adieu tristesse”, de André Salvet; em italiano como “Felicità”, de Mario Panzeri), e a canção entrou no repertório bossa-novista antes mesmo de Chega de Saudade firmar o gênero comercialmente em 1959.