É pau, é pedra, é o fim do caminho
“É pau, é pedra, é o fim do caminho” abre uma das letras mais conhecidas de Jobim. Segundo a Wikipédia em português (artigo Águas de Março), o tema foi desenvolvido em março de 1972 no sítio Poço Fundo, em São José do Vale do Rio Preto, na região serrana do Rio de Janeiro. A composição saiu primeiro no compacto Disco de Bolso (maio de 1972) e ganhou versão definitiva no álbum Matita Perê (1973), com gravação canônica posterior no álbum Elis & Tom (1974), gravado em Los Angeles em fevereiro-março daquele ano.
A letra opera por enumeração paratática. Cada item recebe o mesmo predicador “é” e a mesma extensão métrica curta, criando um inventário sem hierarquia entre o concreto (pau, pedra, caco de vidro) e o abstrato (fim do caminho). A estrutura formal — quase todos os versos começando por “É…” — foi notada pela versão inglesa da Wikipédia (Waters of March). O artigo em português registra duas matrizes literárias declaradas: o poema “O caçador de esmeraldas”, de Olavo Bilac, e um ponto de macumba gravado por J. B. de Carvalho.
A motivação biográfica registrada também na Wikipédia (artigo Águas de Março) inverte a leitura ufanista do verso. Thereza Hermanny, esposa de Jobim, atribuiu a composição a “um dia cansativo de trabalho causado pela composição de ‘Matita Perê’”. O próprio Jobim teria descrito o período como “uma fase em que estava muito deprimido. Parecia que tudo havia acabado para mim”. O “fim do caminho” do verso de abertura é, portanto, mais literal do que a recepção popular tende a reconhecer.
