IX Encontro de Chinês Instrumental
Anotações do nono encontro de Chinês Instrumental, conduzido por Si Fu, com Claudio Teixeira e Thiago Silva. O eixo do dia foi o nome Baat Jaam Do 八斬刀, decupado caractere por caractere: 八 baat, oito; 斬 jaam, o corte; 刀 do, a faca. A aula passou pela sorte chinesa como aleatório neutro, pelas oito direções, pelo contraste entre o jaam que decapita e o 切 chit de cozinha, pela nomeação da faca na família, pela lógica das oito partes e oito sequências, e fechou na relação entre fluxo, peso da faca e sorte ativa.
O Do como amarração e como corte#
Claudio abriu com o que tinha levantado nos ideogramas: o oito, o corte e a faca, e a observação de que o corte carrega algo de machado, um corte seco e definitivo, quase uma decapitação. O oito, na leitura dele, apontava para o todo, todas as direções.
Apareceu na aula a leitura do Do como o ponto em que o sistema se amarra. É onde o praticante pega as ferramentas construídas ao longo do caminho e as conecta em função do próprio desenvolvimento de Kung Fu. Tudo que se aprendeu passa a ser usado ali.
Si Fu pediu para reconciliar o aparente antagonismo: se o Do serve para amarrar o sistema todo, como é que se fala em cortar? Apareceu a formulação de Si Hing Léo Reis, Moy Lei Wong 梅利王, de que todo o sistema é feito para estudar com a faca, ou seja, o sistema inteiro existe para ser o mais eficiente possível com essa ferramenta. E o cortar carrega também a ideia de encerramento do sistema.
八: a sorte que é aleatório#
Para Si Fu, no ideograma do oito não há o que escavar, é só o 八. O que importa é o simbolismo: o chinês é uma língua muito mais simbólica que o português, ainda mais nos números, que guardaram a importância que em várias culturas já se perdeu.
Segundo Si Fu, para o chinês oito é sorte, mas no sentido de aleatório, e não de boa sorte. Se sorte já fosse boa, seria redundante dizer boa sorte. Sorte é o sortido, o que não se controla, e por isso existe boa sorte e má sorte.
Si Fu puxou a etimologia de azar, ligada ao jogo de dado: jogo de azar e jogo de dado eram quase a mesma coisa, e num dado de seis a chance de ganhar é de um sexto, ou seja, um jogo desfavorável. A sorte, então, é neutra.
Apareceu a história do velho que perdeu o cavalo, aquela que volta e meia recircula: perdeu o cavalo (boa sorte ou má sorte, vamos ver), o cavalo voltou com outro, o filho caiu do cavalo novo, e assim por diante. O oito é essa neutralidade da sorte, a ideia de que pode acontecer qualquer coisa.
Entrou aqui um pensamento de Si Taai Gung Moy Yat, no relato de Si Fu. Nesse relato, em Hong Kong pagava-se caro por uma placa 888, e Moy Yat achava isso tolice, porque pegou a própria placa de graça, cinco seis sete, já que cinco, seis, sete leva quem lê a pensar no oito sem precisar pagar por ele.
A sorte ativa: neutralizar, não atrair#
Si Fu chamou isso de sorte ativa: a sorte chinesa demanda ação, você tem que favorecer, ajudar a sorte, para que ela aconteça.
O exemplo que Si Fu deu: estar dentro de casa conversando, e o teto não cair na cabeça. Está fora de controle, um terremoto derruba tudo sem aviso, mas não caiu. Isso é dar sorte, no sentido chinês. O aleatório não interferiu no fluxo das coisas. É o contrário de achar o bilhete premiado e ficar rico, onde o aleatório interfere diretamente. Na leitura de Si Fu, a sorte funciona muito mais neutralizando do que proporcionando.
Outro exemplo de Si Fu: sair de casa, ir à padaria comprar pão e voltar, e isso é boa sorte, porque aconteceu o que tinha que acontecer.
Surgiu na aula, a partir do Carmina Burana, a aproximação com a Roda da Fortuna romana, e a pergunta se a fortuna latina não estaria mais para boa sorte do que para o aleatório neutro chinês. Si Fu disse conhecer menos o pensamento romano de sorte, mas ser levado a acreditar que a fortuna latina puxa mesmo mais para o lado da boa sorte.
Apareceu na aula também, como exemplo, a superstição de quem acredita na sorte e não se deixa fotografar, ou não sorri na foto, como se a foto de um momento de sorte fosse um portal para perder a própria sorte.
Oito direções e o nove que sobra#
As oito direções (norte, sul, leste, oeste e os intervalos) representam todas as direções justamente por conta do aleatório. Pode ser qualquer coisa, e esse qualquer coisa é o que se chama sorte, nem boa nem má.
Si Gung puxava por outro lado: oito é o que sobra de possibilidades, porque sempre são nove. Quando se diz oito, o que vem em seguida é o nove. Fechada uma das nove direções, sobram oito: são oito possibilidades de corte, e ao se fechar uma, restam sempre as outras oito.
O próprio ideograma guarda isso. O 八 tem um vazio no meio, e esse vazio é o nove, o que tem potencial de entrar. Por isso pega oito e sobra uma, sempre imprevista.
斬: o corte que decapita#
Si Fu sublinhou o jaam 斬 como o caractere importante do nome. É o corte que separa de vez, não o cortar comum.
O ideograma é antigo e se decupa em duas partes. À esquerda, 車 ce, uma carroça, com as rodinhas visíveis no traço. À direita, 斤 gan, equivalente a um machado, que não cortava no sentido de fatiar: era decapitar.
A distinção é que um corte de descascar batata pode até ser colado depois; uma decapitação, não. O jaam é secção, separação brusca, violenta. A imagem que Si Fu deu foi a da guilhotina caindo.
Na língua, a ideia de ruptura não vem da faca, vem da ação: diz-se cortar uma relação, não esfaquear uma relação. A ênfase cai no verbo jaam, no gesto, não no instrumento.
Si Fu mencionou que Léo Mordente já indicara, anos atrás, sites chineses que datam o período de um ideograma pela grafia, e situou o jaam, nesse relato, entre os bem antigos.
A superstição do Do, os dez discípulos e o Hung Baau#
Segundo Si Fu, Si Taai Gung Moy Yat vinha de Toi San 台山, região que ele descreveu como muito supersticiosa, algo comparável, no exemplo dado, a se dizer de Salvador no Brasil. Ali não se dava faca de presente, porque a faca podia gerar o mal.
Apareceu a história do aniversário, um relato da família contado por Si Fu. Perto dos quarenta e nove anos, no ano em que Si Gung chegava por perto, Si Taai Gung reuniu dez discípulos e transmitiu o Do pessoalmente. Menos de um ano depois, os dez de que mais se aproximava se afastaram, cada um por uma razão, e um ou dois chegaram a fazer coisas que decepcionaram. No aniversário de cinquenta anos, nenhum dos dez estava presente.
Dessa história ficou, na família, uma assinatura extra ligada ao Do, nascida de uma superstição particular de Si Taai Gung.
O Hung Baau 紅包, o envelope vermelho, é costume chinês corriqueiro de entregar, mas, na família, associado ao Do, ganha a função de neutralizar. Quando Claudio vem trabalhar o Do, há uma ação que chega até ele, e o Hung Baau serve para neutralizar o potencial negativo dessa coisa. É a sorte ativa de novo: uma ação que favorece a neutralização do que pode vir.
切: o cortar de cozinha#
Si Fu pediu o verbo de cortar batata, o cortar de cozinha. É o 切 chit. Consultado na aula, o MDBG registra “to cut, slice, carve” e também “definitely, absolutely”, definitivamente, absolutamente.
Esse é o cortar de fatiar; o de decapitar fica com o jaam. E também se decupa. À direita está o mesmo 刀 do do nome da faca. À esquerda está 七 cat, sete, o ideograma mais fácil de fixar porque parece um sete de cabeça para baixo.
O chit é o corte de verdade do dia a dia; o jaam, a separação.
刀: a faca e o Ving Tsun Do#
O do 刀 é faca, e desdobra em vários formatos e diminutivos (canivete, faquinha), sem simbolismo a escavar.
O nome da nossa é Ving Tsun Do 詠春刀. Aparece por aí como faca borboleta, e há outros nomes em circulação, mas o nome dela é Ving Tsun Do.
Dentro da família, cai a redundância. Quem já pratica pede “o Do”, e basta. Quem está fora da família Kung Fu se refere a ela como Ving Tsun Do. Falando com um praticante, “pega o Do” é o certo, não é informal. Numa sala com mestres de outras artes, ou numa palestra sobre o Do do Ving Tsun, aí sim se diz Ving Tsun Do, porque há muitas outras facas que se poderia pegar.
Baat Jaam Do: oito Cham numa faca só#
O Do tem oito partes. E, diferentemente do Siu Nim Tau 小念頭, do Cham Kiu 尋橋, do Biu Ji 標指, do Jong 樁 e do Luk Dim Bun Gwan 六點半棍, cujas partes são emendadas e seguem numa sequência só, as oito partes do Do são separadas.
Uma das leituras do nome liga o oito a essas oito partes. Se é um Do, ele faz oito jaam, não sete, não seis, não nove. São oito tipos de jaam diferentes, um por parte. E se cada parte especializa um jaam, não faz sentido ter dois jaam iguais.
Claudio levantou se esses oito amarram o todo, todas as possibilidades que o Do oferece. Si Fu preferiu a leitura do oito que sobra um: as oito e mais uma, imprevista. Não pega todas, pega oito, e sempre sobra a nona, o vazio no meio do ideograma. A face lateral da lâmina, com seus oito setores, também pode ser associada, mas o principal são as oito partes, cada uma especializando um jaam, não um corte qualquer.
As oito sequências e os vinte e sete estudos#
Cada uma das oito partes é uma sequência própria, com três andamentos. Um estacionário, o Bat Yi Dung Ma Bo 不移動馬步, sem deslocamento. E dois em deslocamento, o Yi Dung Ma Bo 移動馬步: o Jun-Toei 進退, avançando, e o Toei 退, recuando.
Pelo número rigoroso, três andamentos vezes oito partes dariam vinte e quatro. Mas na sequência completa aparecem três estudos que fogem da conta: a abertura da sequência, na primeira parte, e a segunda parte que possui duas abordagens dos deslocamentos. Dá vinte e sete estudos dentro das supostas vinte e quatro porções.
A parte estacionária inicial tem oito movimentos, e Si Fu mostrou por que oito. Quatro movimentos de um lado e quatro do outro, e quatro movimentos geram três transições. A sequência espelha um lado no outro, mas não repete. Si Fu apontou a simetria (quatro de cada lado) e as transições, ressalvando que o mais útil é a atenção a que cada gesto é diferente do seguinte.
Fluxo e peso: a sorte que não se corta#
Aqui a sorte voltou, agora aplicada ao gesto. Uma das características de um bom Do é que o praticante dá sorte: joga a faca, e o desdobramento cai certo, a lâmina prende a do outro, porque o fluxo é orgânico. Você gera ativamente um processo cujo desdobramento é natural, e a probabilidade passa a favorecer o que tinha que acontecer.
Por isso o Do tem que ficar fácil, sem aquela coisa cansada, forçada, de quem quer golpear, quer estocar. Apareceu a imagem da água: a água vai para a frente quando tem que ir, mas não está louca para ir; sabe o que fazer, vai e faz. Diferente de quem fica forçando para passar.
O gesto precisa de continuidade. Interrompido no meio, corta a sorte: volta a poder acontecer qualquer coisa. Nas oito sequências há oito finais, e neles se pode descansar, mas dentro de cada sequência o movimento não para, como no tai chi que Si Fu citou, que nunca estaciona.
Surgiu a curiosidade sobre o peso da faca, que é robusta e pesada de propósito. Uma faca leve não ajuda a identificar o fluxo nem a própria linha da lâmina. O paralelo é com o Gwan: um Gwan leve é mais gostoso, mas mais difícil de manobrar, e o Gwan ensina a roubar peso pela alavanca. No Gwan, o treino enfatiza a alavanca; no Do, a continuidade do movimento.
A faca pesada sempre desce. Ao invés de brigar com ela, o praticante se aproveita da inércia: completou um gesto, já vira para o próximo, favorecendo a faca a subir de volta. Parar e voltar a jogar corta a sorte, na expressão de Si Fu, e mantendo a continuidade o peso passa a trabalhar a favor. Um bom Do, com o peso, ganha ajuda; um Do todo picotado é atrapalhado pelo mesmo peso.
