IV Encontro de Chinês Instrumental
Anotações do quarto encontro de Chinês Instrumental, conduzido por Si Fu, com Claudio Teixeira. O eixo do dia foi a etimologia de Cham Kiu (尋橋), com escavação caractere por caractere, contraste entre Mandarim e Cantonês, passagem pelas leituras concorrentes do termo no jargão Ving Tsun, e fechamento na leitura específica da nossa linhagem.
Cópia à mão e a técnica do cinza claro#
Apareceu na aula a tentativa de Chi Yau Si Moy de montar um método próprio de prática de ideograma, copiando o que via no MDBG e depois soltando a mão para escrever de forma mais livre, como aconteceu com o caractere “S”. Si Fu sugeriu encurtar o circuito: deixar o ideograma na tela e copiar à mão em folha de papel, sem etapa intermediária. E mencionou uma técnica que chamou de “meio infantil” mas considera eficaz, a de cobrir ideogramas impressos em cinza claro (tipo 10% de tom) e, depois de uma linha inteira coberta, repetir sem cobrir.
Essa técnica casou com a lembrança de um livro que Si Fu encontrou na Fenac, que ensinava chinês por meio de histórias, com os ideogramas inseridos entre parênteses no meio da frase em romanização, no contexto. O relato é que depois de umas dez páginas o leitor já reconhecia em torno de vinte caracteres. O livro tinha justamente os exercícios de escrita por cima do cinza claro.
Cham Kiu: a primeira camada de pesquisa#
Encerrada a parte da escrita, a aula entrou no termo Cham Kiu. Claudio resumiu o que tinha levantado em pesquisa preliminar: numa leitura simplificada, “procurar a ponte”, mas uma busca mais aprofundada apontou referência a uma medida antiga de oito pés, correspondente à envergadura de uma pessoa de mãos abertas. Claudio concluiu que o conceito também envolvia “se ajustar, se adequar, tatear” e construir uma conexão.
Surgiu também a referência a um documento de 2018 sobre Si Gung Moy Yat, em que Chum Kiu aparece como abreviação de “buscar a ponte” ou “cobiçar a ponte”. Si Fu pediu que esse documento fosse compartilhado no grupo do WhatsApp. Para Si Fu, esse trabalho de escavação detalhada será determinante para o programa de mestrado, e funciona, na prática, como uma aula particular dentro da aula coletiva.
Mandarim antes de Cantonês#
Si Fu insistiu numa orientação de método: começar pelo Mandarim para ter visão ampla, e só depois descer para o Cantonês, para não ficar limitado a um nicho. A pronúncia do termo em Mandarim é xún, segundo tom, ascendente. Em Cantonês é Cham Kiu, quarto tom, cortado, seco, que Si Fu associou à ideia de morte.
Houve uma revisão rápida dos tons, com a regra mnemônica de que o primeiro é horizontal, o segundo ascendente, o terceiro um “vezinho”, e o quarto cortado. Chi Yau Si Moy comentou que a pronúncia é bastante musical e que o Gemini estava fazendo a transcrição com precisão. Si Fu pediu que fosse gerado um resumo sucinto dos pontos principais das quatro aulas anteriores, para distribuir no grupo.
Cham é tatear#
Voltando ao Cantonês, quarto tom e seco, Si Fu perguntou pelo significado literal de Cham. Claudio confirmou: “procurar”. Si Fu fez questão de afinar: Cham é procurar no sentido de tatear, procurar com a mão, ato físico. Não é investigar nem pesquisar, é manipulação concreta.
A etimologia do ideograma confirma. A decupagem mostra quatro componentes. Em cima, 彐, radical que figura dedos. Embaixo, 寸, outro radical de mão (literalmente “polegada”, mas representando o pulso com o polegar). No meio, 工, que se lê como “trabalho”. E 口, “boca”, que Si Fu sugeriu não estar aqui ligado a comer, mas a marcar local, delimitar território, e mandou 国 (país) como exemplo dessa leitura. Toda a escavação aponta para o mesmo vetor: a busca, em Cham, é busca física, com as duas mãos.
Kiu, a ponte de madeira que se curva#
O ideograma Kiu, ponte, tem o componente mais importante à esquerda, que significa árvore ou madeira. O lado direito carrega o fonema e sugere algo grande e imponente que tende a se curvar, imagem que casa com a ponte chinesa tradicional, de madeira, arqueada. No dicionário, Cham Kiu aparece literalmente como “procurar ponte”. No contexto do Ving Tsun, esse “procurar” se estende para “atravessar”.
Ponte como braço, ou ponte que afunda#
No jargão marcial, a palavra “ponte” virou apelido para “braço”. Pelo encadeamento, Cham Kiu passa a significar “procurar o braço”, e essa é a tradução mais comum, repetida pela maioria das famílias de Ving Tsun (em algumas variantes vira “procurar abraço”). Si Fu não compra essa leitura: no sistema, segundo ele, o foco não deveria ser o braço do oponente, mas a linha central.
Apareceu então um ideograma homofônico, Chau (沉), que significa afundar, submergir. Numa linhagem específica, esse seria o caractere correto: não “procurar a ponte”, mas “afundar a ponte”. E aqui a ponte também não é o braço, é a estrutura, o quadril que conecta braços e pernas. Afundar a ponte, nessa leitura, é quebrar a estrutura do oponente, como acontece num Lap Sau.
Cantonês sem sistema, e o caso do Siu Lian Tao#
Si Fu reafirmou um ponto que já tinha aparecido em encontros anteriores: o Mandarim tem um sistema oficial de transliteração, o Pinyin, mas o Cantonês não. O que existe são sistemas concorrentes, como o desenvolvido por Léo Mordente. A consequência prática é que o mesmo termo aparece grafado de várias formas: Chau com C ou CH, Siu Nim Tau virando Siu Lim Tau na variação N/L, Bong Sao virando Pong Sao na variação P/B. A escrita acaba dependendo da conveniência da família e da época em que aquela linhagem registrou a romanização.
O termo Siu Lian Tao entrou como ilustração mais profunda dessa variação. Em outra família, o ideograma usado para a forma pode significar “praticar” ou “treinar”, o que faz com que, nessas linhagens, o Siu Nim Tau seja visto como introdutório, “breve treinamento para novato”, quase aquecimento, com uma carga levemente pejorativa que não existe na leitura habitual.
Livros como detrito do conhecimento#
Em algum momento a discussão se afastou do termo e foi para o estatuto do registro escrito. Si Fu citou um pensador chinês que chamava os livros de “detrito do conhecimento”, porque a escrita congela o conceito, omite a evolução histórica e perde o contexto vivo da conversa que originou aquilo. Claudio reforçou com a transição do copismo para a imprensa, momento em que esse congelamento ganhou escala.
Como exemplo, Si Fu pegou A Arte da Guerra, cujo título original é Sun Tzu Ping Fa, “método de soldado de Sun Tzu”. O título romântico ficou por conta de Maquiavel. E o livro começa com a fórmula “Mestre diz”, o que indica que o texto não foi escrito por Sun Tzu, foi registro feito por terceiros, o que abre a pergunta sobre em que contexto foi escrito, e se foi escrito para quem estava na sala ou para quem não estava.
Cham Kiu de Moy Yat: atravessar a ponte curta#
Na nossa linhagem, a tradução mais usual de Cham Kiu não é nenhuma das anteriores. É “ponte curta”. E isso tem a ver com uma camada de Cham que não tinha aparecido até aqui: Cham, em uso antigo, é também uma medida, “uma braça”, a distância de punho a punho com os braços abertos, sem contar a mão. Medida subjetiva, variável de pessoa para pessoa.
Uma “ponte curta”, de um Cham só, sugere risco, ou bloqueio: a pessoa não conseguiria atravessar para o outro lado sem ela, mesmo que a distância seja, em número, pequena. Cham Kiu passa a significar então “atravessar uma ponte curta”. E daí o termo se estende para todas as travessias possíveis dentro do sistema, da base para o topo, do Kung Fu básico para o avançado, do que se sabe fazer para o que ainda não se sabe.
A imagem original de ponte, nessa leitura, não é a ponte arqueada de madeira do ideograma Kiu, é a ponte de corda, aquela que balança quando se pisa nela e exige equilíbrio físico e emocional para que a travessia aconteça. A ponte é curta porque o desafio não está no comprimento, está no que ela pede de quem a atravessa.
