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Intimidade violada

A reportagem descreve a comunidade PUA como um mercado de cursos e fórmulas para abordar mulheres desconhecidas, com técnicas que insistem após a recusa, estimulam contato físico sem consentimento e tratam a mulher como alvo de conquista. O texto liga esse repertório à naturalização do assédio de rua, à tolerância social e à ideia de que o espaço público é masculino.

Fichamento
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  • Julien Blanc vende cursos caros de sedução e divulga técnicas agressivas, como pegar mulheres pelo pescoço, empurrá-las na direção dos próprios genitais, ignorar respostas negativas e usar ofensas racistas.
  • O texto situa Julien dentro da comunidade PUA, inspirada por O Jogo, de Neil Strauss, e por métodos que prometem funcionar com qualquer mulher em qualquer lugar.
  • Há cursos de PUA no Brasil, alguns menos agressivos, mas todos marcados por machismo e pela lógica de insistir depois de um não.
  • O vocabulário interno desses cursos trata a abordagem como jogo, com termos como daygame e nightgame, e ensina escalada de contato físico até o sexo.
  • Um livro citado recomenda agir como macho alfa e não dar à mulher poder de decisão, apenas a opção de aceitar escolhas já feitas.
  • O repórter Caio Costa ouviu num bootcamp que avançar quando a mulher recua faz parte da técnica e que a própria mulher deve encerrar a abordagem, mesmo quando demonstra incômodo.
  • O curso também ensinava que mulheres saem para a balada para “dar”, não para se divertir.
  • O autor Eduardo Playtool adapta o manual para a realidade brasileira, explorando desigualdade social e repetindo preconceitos sobre classe, aparência e lugar de origem.
  • Ele também ensina a levar a mulher para casa sem dizer a intenção, usando desculpa plausível para evitar desconforto quando ela perceber o destino.
  • O psicólogo Vitor Muramatsu aponta que o PUA se apoia na Programação Neurolinguística e em uma persona artificial construída por frases de autoafirmação, com rejeição à resposta do real.
  • Para Muramatsu, a lógica do PUA pode levar ao apagamento de limites, à invasão da privacidade e à formação de uma seita de violadores.
  • A antropóloga Izabel Gomes relaciona o assédio de rua ao fato de a sociedade autorizar homens a abordar mulheres em espaços historicamente masculinos.
  • Ela afirma que a raiz do assédio, da violência doméstica, do estupro e do feminicídio é a mesma estrutura de dominação patriarcal.
  • O texto reúne relatos de mulheres sobre cantadas, toques, medo e mudanças de roupa ou de trajeto para evitar assédio.
  • Na pesquisa Chega de Fiu Fiu, muitas entrevistadas disseram já ter deixado de fazer coisas por medo de assédio, trocar de roupa pensando no lugar onde iriam e não gostar de cantadas.
  • Juliana de Faria diz que decidiu dar voz às mulheres depois de viver assédios desde a infância e perceber a naturalização dessas violências.
  • A campanha montou um mapa interativo, prepara um documentário e publicou uma cartilha com a Defensoria Pública explicando o que é assédio sexual, como denunciar e como enquadrá-lo na lei.
  • A defensora Ana Rita Souza Prata diz que, sem consentimento e abertura, a abordagem é violência, e que o treinamento de homens para esse tipo de prática é absurdo.
  • O texto lembra que importunação ofensiva ao pudor e atentado ao pudor podem ser aplicados em alguns casos, mas não há estatísticas específicas sobre essas contravenções.
  • Rosangela Rigo defende mais denúncias ao 180 e às delegacias especializadas para combater a impunidade e a naturalização da cantada de rua.
  • Daniela Rozados afirma que muitas mulheres não se reconhecem como vítimas porque a violência é baixa em percepção, mas produz medo, ansiedade e restrição de circulação.
  • O texto também associa o problema a mapas urbanos diferentes para homens e mulheres, em que horários, regiões e meios de transporte passam a ser condicionados pelo gênero.
  • Para Daniela, quando o corpo da mulher é tratado como disponível na rua, a violência se expressa na ideia de que ele não lhe pertence, mas aos homens ou ao Estado.