III Encontro de Chinês Instrumental
Anotações do terceiro encontro de Chinês Instrumental, conduzido por Si Fu, com Claudio Teixeira. O eixo do dia foi siu nim tau (小念頭) tomado como domínio: como se pronuncia em Mandarim e em Cantonês, como cada um dos três ideogramas se decompõe em sentido, e como a expressão inteira opera quando se entende o que ela aconselha. Houve também uma rodada inicial sobre a correção da caligrafia, mais curta do que nos encontros anteriores, e ela fica registrada por completude.
Caligrafia: a necessidade de um modelo#
Si Fu corrigiu a abordagem inicial de Claudio para desenhar ideogramas, que vinha distribuindo as porções em quadrados menores como se cada parte do caractere fosse uma unidade independente. A direção é outra: usar um modelo do ideograma já enquadrado e copiar a ocupação dos espaços a partir dele. O desenho de Claudio acertava o ponto de ocupar o quadrado imaginário, mas errava a estrutura interna, separando, por exemplo, as duas “bocas” do ideograma si que não devem ser apartadas. Si Fu insistiu em buscar online um modelo com o ideograma dentro de uma estrutura que mostre a ocupação do espaço, porque sem essa referência a cópia fica órfã.
Caneta, papel e o gancho como consequência#
Si Fu sugeriu a Claudio uma caneta um pouco mais grossa, observando que o ideograma de Chi Yau Si Moy já vinha mais harmônico em parte por causa da espessura da caneta. A caneta mais grossa amplia o contato com o papel e deixa sentir a nuance do traço, o que importa porque o gancho do ideograma deve ser consequência do gesto, não intenção de desenhá-lo. Embora os chineses usem esferográfica no dia a dia, o treino de caligrafia se faz com canetas especiais, do tipo com ponta de pincel. O papel quadriculado também não é o ideal: o papel próprio para caligrafia chinesa traz uma cruz e um X que ajudam a porcionar melhor os traços.
A estética por trás disso é o oposto do que se passa no Ocidente. Aqui, a tecnologia da escrita reformou o que se considera boa caligrafia. Lá, o esforço é manter a estética original da tinta, que gera nuances no traçado pela pressão e pela velocidade da mão. É por isso que o gancho não pode ser colado: ele é o efeito final de quem entende a ordem dos traços (de cima para baixo, da esquerda para a direita, de dentro para fora) e visualiza o ideograma como um contínuo de pressão e relaxamento.
Pronúncia de Siu Nim Tau em Mandarim#
A aula revisou Siu Nim Tau (小念頭) na pronúncia mandarim, Xiǎo Niàn Tóu, e revisitou os quatro tons do Mandarim para localizar cada sílaba: Xiǎo no terceiro tom, Niàn no quarto, Tóu no segundo. Si Fu insistiu em algo prático: a fala precisa correr, sem freio, sem medo de soar ridícula. A vergonha de errar tom é o maior obstáculo de quem está aprendendo, e ela trava justamente o lugar onde o ouvido se calibra.
Cantonês: tons mais próximos, ouvido mais treinado#
A pronúncia em Cantonês traz mais variações tonais e, principalmente, tons mais próximos uns dos outros, o que exige um ouvido bem mais treinado para diferenciar. Si Fu apontou o MDBG como ferramenta excelente para treinar tanto o Mandarim quanto o Cantonês, porque dá acesso ao áudio e à decomposição dos caracteres no mesmo lugar.
Tom como identidade lexical#
Aqui apareceu a distinção que mais embaralha o ouvido formado em português. Em chinês, mudar o tom muda a palavra. Não é entonação no sentido em que a usamos, em que uma frase sobe no fim para virar pergunta sem deixar de ser a mesma frase. No chinês, o tom faz parte da identidade da palavra como o som da consoante faz parte. Quando se diz que falar chinês “sem sotaque” é difícil, na verdade se está dizendo que acertar os tons é difícil, porque é nisso que a língua se sustenta como sistema de sentido.
Siu (小): pequeno, embrionário, insignificante#
O ideograma Siu (小) foi aberto em três leituras que valem por inteiro. A primeira é a leitura de tamanho relativo, “pequeno em si”, a formiga que é menor diante do referente que a observa. A segunda é a leitura embrionária, que carrega potência: a semente é siu não porque seja pouca coisa, mas porque ainda não se parece com o que vai ser. Uma semente não tem forma de árvore. A terceira é a leitura de insignificância, que não mede tamanho nem promessa, mede valor atribuído. As três convivem dentro do mesmo caractere e cada contexto puxa uma delas para frente.
Surgiu no caminho a aproximação com o shao de Shaolin (少林), graficamente vizinho de 小 e semanticamente parente próximo: 少 vive no mesmo campo de “pouco”, “jovem”, “diminuído”. A vizinhança não é coincidência ortográfica, é o mesmo eixo de sentido tocando dois caracteres aparentados, e ajuda a fixar o lugar de siu no vocabulário do praticante de kung fu, que já carrega Siu Lam (少林) na própria genealogia.
Nim (念): ideia, pensamento, lembrança#
Nim (念) abre em três sentidos que se distribuem no tempo. Como ideia, aponta para o que ainda será, e por isso costuma ser a leitura associada ao início de uma prática. Como pensamento, fica no presente, no agora em que a mente atualiza o que está em curso. Como lembrança, recua para o passado. A composição do ideograma confirma essa dobra temporal: a parte de cima carrega o sentido de “presente” e se encaixa no radical do coração na parte de baixo, então nim não é cogitação fria, é o presente passando pelo coração. Si Fu apontou também o sentido derivado de atualização, que é o que liga o caractere ao gesto do praticante que retoma o que sabe.
Tau (頭): cabeça, início, guarda do importante#
Tau (頭) significa cabeça, e por isso carrega o sentido de início e de o que é mais importante. A cabeça abre o corpo e abre a sequência. A composição do ideograma sugere ainda a ideia de guardar coisas importantes, o que abre uma camada extra: cabeça é também o lugar onde o que tem valor fica protegido. Lendo os três caracteres em sequência ao pé da letra, Siu Nim Tau pode ser tomado como uma “pequena ideia no início” que vira “pensamento embrionário” no presente e, depois, “lembrança” no passado.
Nim Tau (念頭) como intenção#
Si Fu fez questão de marcar que, como expressão linguística e não como soma de caracteres isolados, Nim Tau (念頭) significa intenção. E foi específico sobre o tipo de intenção: intenção manipulatória, intenção que é vítima de intervenção, aquela que precisa que o praticante force as circunstâncias para se concretizar, em vez de seguir o curso natural das coisas. Não é qualquer querer, é o querer que empurra.
Siu Nim Tau como conselho de diminuir a intenção#
Posto isso, a leitura holística de Siu Nim Tau (小念頭) deixa de ser descritiva e vira conselho. Si Fu propôs ler o Siu dentro dessa expressão como verbo aplicado à intenção: faça a intenção ficar pequena, faça-a ser embrionária no sentido de potência ainda em transformação, e principalmente faça-a tornar-se insignificante, no sentido de reduzir o valor que se dá a ela. O nome do primeiro domínio do sistema, então, não nomeia uma forma; nomeia uma operação que o praticante deve fazer sobre si mesmo cada vez que entra naquela posição. Os três sentidos de siu não são alternativas, são camadas do mesmo gesto: diminuir o tamanho, manter aberta a possibilidade de virar outra coisa, e parar de levar a sério a própria vontade de manipular o que está acontecendo.
