Ir para o conteúdo principal

← todas as notas

II Encontro de Chinês Instrumental

Anotações do segundo encontro de Chinês Instrumental, conduzido por Si Fu, com Claudio Teixeira. O eixo do dia foi o vocabulário cantonês de mestria e linhagem: o substantivo Si e a teia de termos derivados que organizam quem é quem dentro da família Kung Fu, do tratamento mais cotidiano até as formas que só servem em contexto cerimonial. Cada termo abriu uma camada de etimologia e uma instrução de uso prático.

Si (師): mestre é substantivo
#

師 (Si) significa primariamente mestre, no sentido de modelo a ser seguido, referência. Tomá-lo como “ensinar” no sentido principal é erro comum. A polissemia chinesa permite que a mesma palavra ocupe funções sintáticas diferentes, então o Si às vezes aparece conjugado como verbo, e aí depende de quem olha: vira “ensinar” pelo ponto de vista do modelo, ou “aprender” pelo ponto de vista de quem observa o modelo. Mas a leitura primária é o substantivo, e ela é a âncora.

Historicamente, o substantivo evoluiu para instrutor, que não é o mesmo que professor. O instrutor dá uma instrução direta. Na China, a referência veio da condução de tropas: o instrutor era comandante militar.

Lou Si (老師): o instrutor envelhecido
#

Quando o instrutor de tropa envelhece e ganha experiência, vira 老師 (Lou Si), em cantonês, ou Laoshi em mandarim. Lou é velho. É o professor de escola, um Si envelhecido. Na ordem de respeito da cultura chinesa, fica em segundo lugar, atrás apenas do Si Fu.

Os dois Si Fu (師傅 e 師父)
#

A grafia que o chinês de Hong Kong escuta naturalmente é 師傅 (primeiro tom, sexto tom), o “mestre-mestre”. O Fu aqui é o de mestria, o que executa e transmite, como um maestro. Não carrega conotação familiar. Usa-se com nome próprio, como em “Mestre Julio Camacho”. É o Si Fu de quando se fala sobre alguém para terceiros.

A outra grafia é 師父. Mesmo som, outro Fu: o de pai. Pictograficamente, um homem de peito aberto com duas armas, protegendo a família. Esse é o líder de família Kung Fu. Não se conjuga com nome próprio, porque a pessoa só tem um. Misturar os termos, ou pior, dizer “meu Si Fu Fulano” usando esse Fu, é gafe. Os dois Fu são homófonos, ambos sexto tom.

Provérbio chinês citado por Si Fu: o aprendiz deve aprender a amar o Si Fu e respeitar o pai. A inversão é o ponto. O respeito ao pai vem dado, o afeto pelo Si Fu se constrói.

Dai Si (大師) e o Si Hing como redução
#

Dai (大) é grande. 大師 (Dai Si) é grande mestre, honorável mestre. O ponto contraintuitivo é que Dai Si é o termo original, e o Si Hing (師兄, “irmão mais velho-mestre”) é uma redução dele: “grande mestre que é meu irmão mais velho”. A direção etimológica vai do todo para a parte, não da parte para o todo.

O uso de Dai Si é formal, para fora da família Kung Fu, em apresentações, e quando um grupo quer reconhecer alguém como superior. Não serve para criar subgrupos formais dentro da casa.

Chung Si (尊師): cuidado com a leitura
#

Chung (尊) é venerável, Si (師) mestre. Termo fácil de interpretar mal. Não é grão-mestre, não é fundador. É um reconhecimento subjetivo, dado entre pares e por inferiores. Pode ser ofensivo usar com a pessoa ainda viva.

Pesquisa posterior à aula: para um mestre falecido em quem a linhagem se reconhece como inteira, o termo pode ser 宗師 (zōngshī / zung1 si1), “mestre da tradição”, às vezes traduzido como patriarca. 宗 é o caractere específico de “tradição transmitida desde um ancestral comum”, e por isso o termo carrega bem o peso póstumo que torna o Chung Si (尊師) ofensivo de aplicar a alguém ainda vivo. Falta confirmar com Si Fu se a casa usa 宗師 nesse sentido.

Si Jo, Jo Si: a ordem que diferencia trilhas
#

A posição do caractere é convenção, e ela diferencia trilhas. Si (師) na frente (Si Hing 師兄, Si Fu 師父, Si Mo 師母, Si Gung 師公, Si Taai 師太1) marca a trilha da ancestralidade dentro da família: irmão mais velho, pai, mãe, avô, avó. Jo (祖, antecessor) na frente, como em Jo Si (祖師), marca o fundador. É o jeito de não confundir o ancestral linear com quem fundou a coisa toda.

Sinsan (先生): nascido antes
#

先生 (Sinsan) é cantonês para nascido antes. O Sensei japonês é cognato do mesmo composto. A rigor, qualquer pessoa nascida antes é Sinsan, mas o termo funciona como pronome de tratamento respeitoso, análogo ao “o senhor” português ou ao “venerável” em outros contextos. Não é título, é forma de tratamento. É útil em situações como um grupo de testemunhas onde se quer evitar sublinhar a diferença entre mestres e não-mestres, e por isso aparece como saída diplomática quando o cargo seria pesado demais.

Dou (道): o orientador espiritual
#

道 (Dou) é termo para mestre ou guru com cunho mais espiritual, voltado à orientação geral da vida. Aparece também no uso acadêmico chinês: orientador de mestrado ou doutorado é um Dou. Não é termo do dia a dia, mas vale reconhecer.

Moon Paai (門派): galho ligado é linhagem, galho descolado é seita
#

門派 (Moon Paai; mandarim ménpài, cantonês mun4 paai3) significa literalmente “ramificação de alguma coisa”, os galhos de uma árvore. Moon (門, mén / mun4) sozinho é abreviatura de Moon Paai e aparece muito traduzido como “seita”. O conceito encaixa porque uma seita é, etimologicamente, um galho que se desligou do processo, da árvore principal. A diferença entre Paai (派, pài / paai3) como seita e Paai como continuidade está na conexão: o galho que continua ligado é linhagem, o galho que se descolou é seita. O critério não é o tamanho do ramo, é se ele ainda passa seiva pelo tronco.

Senioridade é tempo de mestria
#

Na nossa família, se for estabelecido que senioridade são 12 anos de mestria, ela é alcançada por simples passagem de tempo, em data marcada pelo calendário, não por idade biológica nem por nova prova. O exemplo recorrente, do lado oposto, é a faixa vermelha da família Gracie, que só vem após os 65, e é critério etário puro. Aqui o critério é outro: o relógio rodou. Para mim, então, 2036.


  1. Aparentemente o 太 de Si Taai é o mesmo 太 de Si Taai Gung 師太公 e Si Taai Po 師太婆, posição da geração de bisavós na família Kung Fu. Como conciliar isso com o uso de Si Taai para “avó” na enumeração acima fica para uma conversa mais a fundo num próximo encontro. ↩︎