A refavela revela o salto / que o preto pobre tenta dar / quando se arranca do seu barraco / prum bloco do BNH
Refavela é o segundo disco da trilogia “Re” e foi gravado em 1977, mesmo ano em que Gil participou do FESTAC'77, festival de arte e cultura negra em Lagos, na Nigéria. Em Lagos, ele viu construções que lembravam Salvador — tentativas estatais de retirar populações de favelas e reassentá-las em conjuntos habitacionais que se transformavam, eles próprios, em novas periferias (amusicade.com, Refavela 1977). Essa observação atravessa o disco inteiro.
A faixa-título nomeia a operação social com um neologismo: “refavela” é o que sobra depois que a favela foi removida e reproduzida em outro lugar. Os versos “A refavela revela o salto / que o preto pobre tenta dar / quando se arranca do seu barraco / prum bloco do BNH” descrevem o reassentamento como movimento ascendente apenas em aparência. O Banco Nacional da Habitação prometia subida na escala social; o salto era contado em metros quadrados de concreto, não em condições de vida. Outro trecho atesta que o disco também olha para a continuidade cultural: “a refavela revela o passo com que caminha a geração do black jovem do Black Rio da nova dança no salão”.
O verbo “revelar” é dito três vezes ao longo do disco. Refavela revela. A construção é redundante de propósito — o nome da coisa contém o gesto de mostrar a coisa. Gil instala o disco como ato de pôr à vista o que a remoção tentou esconder.
