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❝ Citação

Das feridas que a pobreza cria sou o pus / Sou o que de resto restaria aos urubus

A canção foi composta e gravada em 1983, no álbum Extra. O contexto é o final do regime militar e a explosão do movimento punk na periferia de São Paulo, particularmente em bairros como Freguesia do Ó, mencionada nominalmente no refrão “Sou um punk da periferia / Sou da Freguesia do Ó”. Gil, então com quarenta anos e morando em Salvador, assume sem mediação a primeira pessoa de um sujeito que não é o dele.

Os versos centrais “Das feridas que a pobreza cria sou o pus / Sou o que de resto restaria aos urubus” operam em registro brutal. O eu lírico se identifica com o que a pobreza expele — não com o ferido, mas com o pus da ferida — e em seguida com o resto destinado aos urubus. A escolha de figuras é cirúrgica: o pus é matéria viva da infecção, os urubus são limpadores de carcaça. O sujeito nomeia-se como excedente que circula entre o vivo doente e o morto a ser limpo.

A canção evita o lugar mais confortável da MPB engajada — a voz solidária que descreve o sofrimento alheio em terceira pessoa. Aqui Gil cede o eu lírico inteiro. Não está falando sobre o punk; está falando como se fosse o punk. A operação tem custo: dispensa a empatia decorativa em favor de uma identificação seca.