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❝ Citação

Os lucros são muito grandes / Mas ninguém quer abrir mão, não / Mesmo uma pequena parte / Já seria a solução

A canção foi composta por Gil em parceria com Arnaldo “Liminha” Brandão e gravada em 1985 no álbum Dia Dorim Noite Neon. O período é o da Nova República, momento em que o debate sobre desigualdade estrutural retornava ao centro da agenda pública depois de duas décadas de ditadura. O Instituto Gilberto Gil arquiva a letra integral no Google Arts & Culture.

Os versos “Os lucros são muito grandes / Mas ninguém quer abrir mão, não / Mesmo uma pequena parte / Já seria a solução” formulam o problema da concentração de renda em quatro linhas curtas e sem ornamento. A primeira constata que existe excedente. A segunda nomeia que ninguém o quer dividir. A terceira mede o que bastaria. A quarta declara que isso resolveria. A retórica é desarmada de propósito: nenhum tropo, nenhuma ironia tropicalista, nenhuma metáfora agrícola. Só o cálculo direto.

A escolha estética importa. Gil, que nas décadas de 1960 e 1970 cifrara o Brasil em alegorias densas (Tropicália, Refavela, Refazenda), aqui opta pela enunciação plana de assistente social. O efeito é de outra ordem: a canção não pede interpretação, pede atenção ao que diz. A formulação serviria de epígrafe para boa parte da política redistributiva brasileira que viria nas duas décadas seguintes.