Ir para o conteúdo principal

← todas as notas

❝ Citação

Tenho que ficar a sós / Tenho que apagar a luz / Tenho que calar a voz

A canção foi composta por Gil em 1980. Ele a ofereceu primeiro a Roberto Carlos, que recusou: como católico devoto, não quis cantar uma peça que dispensava mediação eclesiástica. Elis Regina soube da existência da música, pediu para gravá-la, e a apresentou em single ao lado de “O Trem Azul” em 1981 (Bonas Histórias, 40 anos da mais polêmica criação). Gil gravou sua própria versão em seguida.

Os versos atestados (“Tenho que ficar a sós / Tenho que apagar a luz / Tenho que calar a voz”) encadeiam três renúncias: companhia, visão, fala. Cada subtração nomeia uma camada do que normalmente se considera necessário ao culto religioso. O fiel católico precisa do padre, do altar iluminado, da liturgia falada. Gil descreve um acesso ao divino que se faz pela via inversa, removendo um a um os elementos da forma social do culto.

A polêmica que a canção gerou em 1980 vinha justamente daí. Não nega Deus; nega a infraestrutura institucional do encontro com Deus. A formulação é sintaticamente paralela: três frases com a mesma estrutura, cada uma removendo um elemento. A repetição funciona como mantra. O texto pratica formalmente o que descreve: esvaziamento progressivo até o silêncio.