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❝ Citação

Cultura como tudo aquilo que, no uso de qualquer coisa, se manifesta além do mero valor de uso

A formulação aparece no mesmo discurso de posse de 2 de janeiro de 2003 que firmou o “não cabe ao Estado fazer cultura”. O arquivo do Instituto Gilberto Gil hospedado pelo Google Arts & Culture registra a definição em três tempos: cultura como o que excede o valor de uso de cada objeto, como “fábrica de símbolos de um povo” e como “conjunto de signos de cada comunidade e de toda nação”. A definição é antropológica, não estética.

A escolha técnica importa. “Valor de uso” é categoria de Marx no primeiro livro de O Capital. Gil propõe que cultura é o que se manifesta para além desse valor — não a função que o objeto cumpre, mas o sentido que o objeto carrega quando alguém o usa. Uma rede de pesca tem valor de uso (pegar peixe) e valor cultural (o ritmo de tecer, o conhecimento dos nós, a relação com o mar). A política cultural se ocupa do segundo, sem desprezar o primeiro.

Gil também introduziu no discurso o termo “semiodiversidade”, construído por analogia com biodiversidade. O Brasil, ele argumentou, tem duas riquezas que atraem o mundo: a diversidade biológica da Amazônia e a diversidade semiótica da cultura nacional. A definição ampla de cultura é o que torna a segunda riqueza mensurável e protegível. A frase é a fundação conceitual de toda a gestão que viria.