Alô, alô, seu Chacrinha, velho guerreiro / Alô, alô, Terezinha, Rio de Janeiro
Os versos pertencem à enumeração de saudações que sustenta “Aquele Abraço”. Gil dirige-se a Abelardo Barbosa, o Chacrinha (1917-1988), e à sua assistente de palco Terezinha. Chacrinha era apresentador de auditório do Canal 13 e da TV Globo, figura barulhenta e proletária que destoava do padrão de elegância controlada da televisão brasileira do fim dos anos 1960. Os tropicalistas o adotaram como referência: Caetano Veloso já havia gravado “Coração Materno” como tributo, e Gil completa a inscrição.
Chamar Chacrinha de “velho guerreiro” e em seguida de “velho palhaço” no mesmo refrão (a estrofe completa alterna os dois epítetos) faz coexistir respeito e deboche. Nenhum dos dois é mais verdadeiro que o outro. A ambivalência é a operação tropicalista típica: dignifica a cultura de massa popular sem domesticá-la, e usa o vocabulário da palhaçaria sem precisar disfarçar.
A inclusão de Terezinha ao lado de Chacrinha tem efeito político não declarado. A canção é despedida do Brasil às vésperas do exílio, e Gil decide saudar não apenas a estrela mas a assistente — coloca no mesmo nível a figura televisiva e a operária invisível do programa. Toda a estrutura de “Aquele Abraço” trabalha nessa horizontalização entre nomes consagrados e bairros periféricos, escolas de samba e torcidas de futebol.
