Não cabe ao Estado fazer cultura, mas, sim, criar condições de acesso universal aos bens simbólicos
Gilberto Gil foi empossado Ministro da Cultura no primeiro dia útil do governo Lula, em 2 de janeiro de 2003, e permaneceu no cargo até 2008. O discurso de posse fixa a doutrina que organizaria a gestão. A frase aparece com pontuação atestada na republicação que o próprio Gil fez em 19 de janeiro de 2020, em resposta ao plágio de Goebbels feito por Roberto Alvim, então secretário de cultura (Geledés, Gil republica show na ONU e discurso de posse no Ministério da Cultura).
A formulação tem duas partes que precisam ser lidas juntas. A primeira nega: o Estado não faz cultura. Cultura é produção de uma sociedade, não decreto de gabinete. A segunda afirma: cabe ao Estado criar as condições materiais de acesso aos bens simbólicos já produzidos. A política cultural deixa de ser curadoria oficial e passa a ser infraestrutura — formação de público, financiamento, distribuição, reconhecimento de práticas que já existem fora do circuito letrado.
A construção retórica recusa simultaneamente dois modelos. Recusa o Estado dirigista, que decidiria o que é cultura legítima e financiaria conforme. E recusa o Estado neoliberal, que delegaria tudo ao mercado. O termo “bens simbólicos” é técnico — vem da sociologia de Bourdieu — e foi escolhido para deixar claro que cultura não se reduz a entretenimento nem a belas-artes. Inclui as duas e tudo entre elas.
