Aqui é o fim do mundo
A canção foi gravada no álbum Gilberto Gil de 1968, considerado um dos discos fundadores da Tropicália, ao lado de Os Mutantes e do arranjador Rogério Duprat. A letra é parceria com Torquato Neto (1944-1972), poeta piauiense que assinou várias das peças mais ácidas do movimento. O refrão “aqui é o fim do mundo” é dito pelo eu lírico como caracterização do país — e como reconhecimento de que escrever a partir desse país é escrever de uma fronteira.
A frase tem duas leituras simultâneas. A primeira é geográfica: o Brasil é o fim do mundo no mapa colonial europeu, periferia tardia da modernidade. A segunda é temporal: 1968 é o fim do mundo como experiência política, ano do AI-5 e da prisão de Gil meses depois. As duas leituras se sobrepõem na voz que canta. O eu lírico não está protestando contra o fim do mundo — está descrevendo o lugar de onde fala, e essa descrição já é o protesto.
A parceria com Torquato é típica desse momento. Gil oferecia a moldura melódica e harmônica; Torquato cravava versos curtos que se autossustentavam como aforismo. O resultado não é canção de protesto convencional, e não é experimentalismo gratuito. É o reconhecimento de que cantar a partir do fim do mundo exige outra prosódia.
