Ir para o conteúdo principal

← todas as notas

❝ Citação

O amor da gente é como um grão / Uma semente de ilusão / Tem que morrer pra germinar

A canção é endereçada a Sandra Gadelha, com quem Gil se casou em 1969 e de quem se separou no início dos anos 1980. “Drão” é o apelido que Maria Bethânia havia dado a Sandra ainda adolescente em Salvador, e que ficou (Cultura Genial, Drão de Gilberto Gil). A composição foi feita em 1981 e gravada em 1982 no álbum Um Banda Um.

Os versos de abertura — “O amor da gente é como um grão / Uma semente de ilusão / Tem que morrer pra germinar” — fazem o que poucas canções de divórcio fazem: tratam o fim como condição de continuidade. A imagem é agrícola, não jurídica. O grão precisa morrer no escuro da terra para virar planta; o amor romântico precisa cessar para virar outra coisa. Gil não nega o que houve, e também não promete que o que houve sobrevive intacto. Promete apenas que algo nasce do que apodreceu.

O recurso retórico é a equivalência entre dois ciclos: o amor como semente, a semente como amor. Nenhum dos dois termos é metáfora do outro; ambos são instâncias do mesmo movimento de morte e germinação. O que evita a sentimentalidade é justamente isso: a separação não é narrada como perda, mas como fase de um processo que não se interrompe.