No fim de contas a vida é uma aventura
A frase é dita no terceiro romance do ciclo de Porto Alegre. “Um Lugar ao Sol” tematiza a busca de espaço próprio numa cidade que passa pelos efeitos da Revolução de 1930, da industrialização inicial e da chegada de Getúlio Vargas ao poder. Os personagens — Vasco Bruno, Clarissa, Noel, Fernanda — circulam por bondes, pensões, redações de jornal, enquanto procuram reconhecimento, amor, profissão, e algum tipo de pertencimento.
“No fim de contas a vida é uma aventura” articula resignação e ação ao mesmo tempo. “No fim de contas” é uma expressão de fechamento balanceado, de quem já considerou as alternativas e chegou a essa formulação. “Aventura” recusa as duas saídas mais fáceis: a de tratar a vida como projeto que se cumpre por etapas e a de tratá-la como sofrimento que se atravessa passivamente. Aventura implica imprevisibilidade, mas implica também sujeito que entra nela.
A palavra tem ressonância histórica específica. Os anos 1930 foram, no Brasil, os anos das grandes aventuras políticas: tenentismo, Aliança Liberal, Revolução de 30, Constitucionalista de 32, Intentona Comunista de 35, Estado Novo de 37. A mesma palavra que Veríssimo usa para a vida íntima dos seus personagens estava sendo aplicada, no jornalismo, à vida coletiva do país. A frase admite, sem nomear, esse paralelismo entre biografia e história.
