Todos morrem. Os ricos e os pobres, os inteligentes e os estúpidos
A frase é tão simples que se pode passar batido. “Todos morrem. Os ricos e os pobres, os inteligentes e os estúpidos.” A construção é homérica, o paralelismo arruma os pares por hierarquia social e por hierarquia cognitiva, e a morte aplaina as duas escalas com igual neutralidade. A frase pertence ao registro dos provérbios, mas Veríssimo a usa em romance, e ela ganha peso narrativo porque o livro inteiro é sobre o que vem depois.
“Incidente em Antares” é construído sobre a injustiça da sociedade que sobrevive aos mortos: o coronel, o farmacêutico, a prostituta, o sindicalista, o advogado, o operário e a beata. Quando todos morrem no mesmo dia e todos se recusam a ser enterrados juntos, a igualdade da morte já não funciona como consolação porque os mortos continuam a falar como vivos, com as mesmas hierarquias e os mesmos rancores. A frase, tomada isoladamente, é um lugar-comum. Tomada dentro do romance, é uma promessa que o livro vai sistematicamente desmentir.
A tradição da igualdade na morte é antiga — está em Eclesiastes, na “Dança Macabra” medieval, no “Não te assustes, ó alma” de Bossuet. Veríssimo a invoca para depois mostrar que, na sociedade de Antares, mesmo a morte foi capturada pela hierarquia. O que iguala em Antares termina sendo a fala dos mortos, no momento em que ela escapa do controle dos vivos.
